O Matuto ouviu dizer por aí que a ternura estava fora de moda. Ficou a matutar na coisa. Não lhe pareceu. Pelo contrário. O Matuto chegou à idade da ternura.
Não a ternura dos quarenta, feita de entusiasmos. Mas outra. A idade em que uma caneta faz mais sentido que um smartphone. A idade em que um gesto vale mais do que um discurso e uma memória mais do que uma novidade. É a idade das pequenas ternuras.
O Matuto entende de ternurices, por isso afirma que há ternura em quem obstinadamente colecciona selos. Em quem acorda de madrugada e se espanta com um céu crivado de estrelas. Em quem ainda chore vendo Casablanca. Em quem segura delicadamente uma lagartixa e lhe faz festas com a ponta dos dedos. Em quem se debruça sobre uma flor do campo como se estivesse diante dum quadro de Monet. Em quem ri das próprias rugas. Em quem sobe uma escada cautelosamente. Em quem se curva diante dos velhos. Em quem decide estudar uma língua morta. Em quem percorre a cidade à procura dos lugares onde antigamente havia cinemas. Em quem saboreia uma salada com queijo e pedaços de maçã. Em quem continua a mandar fazer roupa por medida. Em quem ainda oferece rebuçados (balas, no Brasil, por favor) do Dr. Bayard.
Naturalmente, que o Matuto considera haver outras ternuras. As que só existem porque o tempo passou.
Há ternura em mordiscar um chocolate Regina. Em nos sentarmos na cadeira favorita do avô. Em ler livros onde desconhecidos deixaram pequenas marcações a lápis. Em guardar com convicção a Parker do pai. Em beber um Porto Ferreira Branco à saúde dos amigos distantes. Em recordar a bondade dum amigo já falecido e, logo depois, sorrir por causa duma conversa antiga com esse mesmo amigo. Há ternura em afiar o lápis com um canivete. Há ternura em manter vivos os pequenos rituais da amizade. Em atar um molho de cartas velhas com uma fita. Em guardar folhas ressequidas dentro dum livro. Em conservar pequenas pedras colhidas em praias onde fomos felizes. Em voltar à padaria da infância.
Mas talvez as maiores ternuras não habitem nas coisas, reflecte o Matuto. Habitam nas pessoas.
Existe ternura naquela pessoa que telefona apenas para contar uma piada nova. Existe ternura em adoptar uma criança. Existe ternura em brincar com as crianças fazendo caretas. Existe ternura em cantar à desgarrada com o canário da vizinha. Existe ternura em acender uma fogueira no meio do mato ou a lareira numa noite fria. Existe ternura em escrever o nome da pessoa amada num velho tronco de árvore. Existe ternura em dançar leve e misteriosamente como Fred Astaire. Existe ternura na pessoa que repara um guarda-chuva velho. Existe ternura em quem ainda se emociona com um pôr-do-sol, se espanta diante duma cascata, acorda com a aurora ou passeia nos parques de Londres. Existe ternura em quem de repente desata a cantar no meio dos canais de Veneza. E existe ternura em quem acredita compreender os animais, especialmente os cavalos.
O Matuto descobriu recentemente outra forma de ternura.
Chama-se Isabel. É um palmo de gente.
Senta-se no chão da Casa das Pontes e vasculha os baús do vovô como quem procura tesouros. Depois, com um dedito esticado, tenta roubar-lhe os óculos redondos. Ainda não sabe falar, mas já sabe encantar.
Há muita ternura na pequena mão da Isa a segurar a mão do vovô. Há ternura no balbuciar animado das primeiras palavras. Há ternura na curiosidade infinita com que abre caixinhas e gavetas, e também há ternura na forma como delira a brincar de esconde-esconde. Há ternura quando ela se acomoda no degrauzinho da cozinha a comer frutinhas. Há ternura porque a Isa é uma pequena ternura.
Enquanto o Matuto aquece as mãos numa chávena de chá a pequena Isa chega. Agarra um dedo do vovô e leva-o até à janela para lhe mostrar um passarinho.
O Matuto olhou. Não era um passarinho. Era apenas uma folha dançando ao vento.
O Matuto sorriu. Isto também era ternura: Ver um pássaro onde outros apenas vêem uma folha.