O Matuto pela-se por um bom café. É uma das suas paixões respeitáveis. O estado de tranquilidade e bonomia só costuma ser atingido depois do segundo café da manhã. Já Gordon Lightfoot, esse bardo do Canadá, dizia algo similar: “I'm on my second cup of coffee and I still can't face the day / I'm thinking of the lady who got lost along the way”. Para almas mais simples basta “um cafézinho pela manhã e o gosto da Primavera”, como canta Éva Lenoir.
No Brasil, país que tão generosamente acolheu o Matuto no seu seio, o café aparece filtrado em chávena generosa. É o café coado. De origem “gourmet” – palavra da moda. Tudo é “gourmet”! Até existem prédios com varandas (sacadas, no Brasil, por favor) “gourmet”. Muitas padarias - local ideal para um bom café – servem um expresso. Café mais forte.
O Matuto está nestas andanças mentais, enquanto amanhece na Casa das Pontes. Outonou por aqui. O piar da passarada é discreto. Debicam gulosamente as bagas das palmeiras e depressa alçam vôo. Ariscos. As plantas dão um ar da sua graça, mas a friagem trata de lhes cortar as ambições florísticas. A piscina é um corpo líquido expectante. Apenas a Bonnie e o Clyde, um casal de ‘bem-te-vis’, se atrevem a romper-lhe a superfície. Mergulham, sacodem as penas e depois afinam o bico nas pedras da borda. O Óscar, a lagartixa residente das Pontes, dorme preguiçoso no sol frio. O Matuto topou, por estes dias, com vários Óscarzinhos trepando pelos muros. Sinal de que o patriarca não tem passado os dias apenas a apanhar sol.
Mas voltemos ao café que está a arrefecer - nada pior do que café frio. O Matuto recorda-se de como em Portugal se bebe tanto café. E de como cada português cultiva a sua maneira muito própria de o tomar. Tudo começa no nome: o café em Portugal vira ‘bica’. E a própria ‘chávena’ (xícara, no Brasil, por favor) tem muito que se lhe diga. A distinção entre ‘chávena escaldada’ e ‘chávena quente’ sugere ao Matuto que os Portugueses atingiram uma certa sofisticação civilizacional. Que gente brunida!
E assim entramos nos arcanos da arte de pedir café no rectângulo Luso. Há quem goste duma ‘bica curta’, outros de ‘bica cheia’, outros pedem ‘uma italiana’, outros ainda ‘um carioca’. Depois há quem entre na pastelaria e peça um ‘café duplo’ ou então um ‘abatanado’. O Matuto sempre pensou que a pessoa que pede um ‘abatanado’ tem tendências tauromáquicas. Por outro lado, uma dama que entre na Versailles ou na Mexicana e peça ‘um café sem princípio’, terá disposições metafísicas. Quem pede uma ‘bica cheia’ inspira confiança. Quem pede um ‘café sem princípio’ provavelmente tem divagações kantianas. Ora, tudo isto existe e nem por sombras é triste. É até reconfortante!
Há ainda o ‘café pingado’, o defunto ‘café com cheirinho’ e depois as variantes com leite: o ‘galão’ – com bastante leite, o ‘garoto’ – com pouco de leite, ou espuma de leite, e a ‘meia de leite’ – onde o café e o leite convivem em igualdade. Naturalmente, há sempre quem cometa o pecado imperdoável de pedir um ‘descafeinado’. Há indícios sérios de ser esta a causa da decadência de muitas civilizações. Chegado aqui, o Matuto descansa porque a crónica ficaria enorme se falasse do café em cápsulas, variante praticada em
muitos lares portugueses. Além disso, nunca conseguiu distinguir o ‘Napoli’ do ‘Genova Livanto’, o ‘Voluto’ do ‘Palermo Kazaar’, nem qualquer outra dessas esquisitices italianas que prometem experiências transcendentes e acabam por saber, teimosamente, a café. De tudo isso, o Matuto aproveita apenas a lição de geografia italiana.
O Matuto só conhece um outro fenómeno semelhante: as 1001 palavras que os ingleses reservam para a prosaica chuva: ele é ‘sprinkling’, ‘spitting with rain’, ‘mizzle’ (misto de neblina e chuva), ‘drizzle’ (garoa, no Brasil, por favor), ‘shower’, ‘downpour’, ‘pouring with rain’, ‘torrent’, ‘pelting down’, até à célebre ‘it’s raining cats and dogs’.
O Matuto constata assim que os portugueses são um povo ferozmente apegado à sua liberdade de escolha. Pelo menos no que toca ao café. Quando falamos de pastéis de nata, a coisa pia mais fino: é essencial escolher criteriosamente o terceiro pastel de nata da segunda fila da travessa de baixo. O Matuto desconhece os fundamentos científicos envolvidos, mas confia no processo. É sinal, também, dum certo refinamento cultural, recusar qualquer outro pastel de nata oferecido pelo empregado de balcão. O próprio Matuto exerce este direito com brio e obstinação.
Assim, o Matuto conclui que a arte de beber café em Portugal é uma afirmação de identidade. Ora, isto não é coisa pouca. Num tempo de terraplanagens culturais, pedir na pastelaria da esquina uma ‘bica cheia’, uma ‘italiana’ ou um ‘café sem princípio’ continua a ser uma pequena declaração de independência. O império pode ter acabado, mas o português ainda governa soberanamente a sua chávena. E nunca admite ingerências externas.