O Matuto nunca teve um animal de estimação. Um ‘pet’, como se diz agora. Nem cão, nem gato, nem passarinho, nem tartaruga... Houve apenas um lamentável episódio com um peixinho dourado que, ainda Matutinho, trouxe para casa num saco de plástico. Após ser transferido para um copo, o laborioso peixinho andou em círculos solitários durante uns dias e finou-se. Existe a suspeita de que a vida inteira do bichinho coubera naquele copo e que ele simplesmente esgotara o assunto. Deve ter morrido de excesso de introspecção.
O Matuto concluiu que não tinha jeito para ser ‘pai’ de pets. E, na verdade, naquele tempo não era chique ser ‘pai’ ou ‘mãe’ ou ‘avó’ ou ‘tia’ dum cão (cachorro, no Brasil, por favor). Até existia a expressão “vida de cão”. Ironicamente, hoje quem tem “vida de cão” são os hominídeos, enquanto os nossos amigos de quatro patas desfrutam de regalias régias, como sonecas, massagens, alimentação gourmet e acompanhamento psicológico.
Uma amiga do Matuto revelou recentemente que está a pensar contratar uma ‘petsitter’. Atrapalhado, o Matuto exclamou: ‘ora essa!’. Todavia, a ‘mãe’ dedicada garantiu que a referida ‘petsitter’ iria dar almoço e jantar ao Henrique, iria fazer-lhe companhia se ele se sentisse só e obviamente iria levar o canito a dar os seus passeios higiénicos. Portanto, vistas as coisas, era uma óptima ideia, para a ‘mãe’ e para o Henrique. A certa altura o Matuto já não percebia se estavam a falar de um cão ou de um jovem violinista com necessidades especiais.
O assunto foi recebido com entusiasmo na Casa das Pontes. O Sr. Rocha, visita letrada das Pontes e ‘pai’ orgulhoso da Sofia e da Cacau, informou ter lido há dias sobre uma cidade americana onde organizavam concertos para cães com o propósito de lhes reduzir o stress.
— Por lá existem até sessões de cinema exclusivamente destinadas ao público canino — acrescentou.
O Matuto ficou a meditar. Sempre acreditara que um cão feliz precisava apenas dum quintal, dum osso e da ocasional boa vontade dum carteiro. Pelos vistos, estava enganado. A felicidade canina exigia agora programação cultural.
A Belinha, a visita conservadora das Pontes e ‘tia’ babada do Henrique, apresentou algumas reticências:
- Aceitaria mais facilmente um concerto para vacas. Ouvi dizer que Mozart favorecia a produção de leite. Pelo menos aí há uma certa lógica económica.
Sempre práctica, a Belinha. O Matuto imaginou as vacas melómanas a mugir ‘mooozart’.
O Marcello, a visita reacionária das Pontes, serviu-se de mais um cálice de Porto Ferreira e colocou alguma ordem na casa:
- Fica oficialmente decretado que a expressão "vida de cão" precisa de revisão. Certo!
A observação fez o Matuto matutar. Caramba! A realidade moderna tornou-se tão absurda que até os provérbios clássicos deixaram de funcionar. Assim, ele começou a desconfiar que a velha sentença “quanto mais conheço os homens, mais gosto dos cães” também precisava de revisão. Hoje talvez fosse mais rigoroso dizer: “quanto mais conheço os homens, mais me parece que eles gostariam de ser cães”.
E, vistas bem as coisas, não lhes faltam razões. O cão moderno dorme sem remorsos, come melhor do que muito estudante universitário, frequenta salons de beleza, faz fisioterapia, tem alimentação personalizada, terapeuta, festas de aniversário, casamentos onde se trocam coleiras em vez de alianças e dama de companhia. Há até quem lhe celebre o Natal e lhe compre uma capa impermeável para não apanhar friagens existenciais.
O dono, esse, levanta-se cedo para trabalhar, enfrenta o trânsito, paga as prestações da casa, as contas da electricidade, os impostos e, naturalmente, a alimentação gourmet do Henrique.
Ao Matuto parece-lhe curioso que uma civilização capaz de organizar concertos para reduzir o stress dos cães produza tantos humanos permanentemente stressados.
Nesse momento, sorvendo o seu chá preto, o Matuto reparou no Óscar, a lagartixa residente da Casa das Pontes. Dormia ao sol, sem massagens, sem terapeuta, sem alimentação gourmet, sem celebrações natalícias e sem qualquer espécie de enriquecimento cultural.
Sereno.
O peixinho dourado tivera a vida inteira reduzida a um copo. Os cães de hoje têm vida regalada. O Óscar tem um muro inteiro. E isso basta! O Matuto nunca o surpreendeu entregue a introspecções.