sexta-feira, 10 jul. 2026

O Matuto e a Sopa do Dia

Dizem que a tecnologia veio simplificar a vida. O Matuto entrou apenas para beber um café e já se sentia a meio dum curso de informática.

O Matuto entrou num café sem grandes ambições. Queria apenas beber uma bica, talvez acompanhada duma torrada. Comer uma sopa. E contemplar em paz a condição humana. Era um projecto modesto. Quase monástico. Sentou-se junto à janela e pediu a ementa.

A empregada sorriu com simpatia.

— É só apontar o telemóvel para o código.

O Matuto seguiu a direcção do dedo da rapariga e deu com um pequeno quadrado negro impresso na mesa. Ficou a observá-lo como um antropólogo vitoriano diante de um ídolo tribal descoberto na Amazónia.

— Não tenho telemóvel — esclareceu.

A empregada pareceu momentaneamente surpreendida. Era como se o Matuto tivesse confessado não possuir rins ou sistema circulatório. Aos olhos da jovem, acabara de se juntar aos Amish, aos monges trapistas e a outras espécies em vias de extinção.

— Ah...

Durante alguns segundos instalou-se um silêncio embaraçoso. O quadrado negro permanecia entre ambos, impassível e omnisciente, pousado sobre a mesa com a autoridade silenciosa de um artefacto sagrado. A exigir obediência sacramental.

O Matuto fora educado na convicção singela de que uma ementa devia ter corpo, peso e letras impressas. Durante séculos, o método revelara-se satisfatório: entrava-se num café, recebia-se uma folha plastificada, escolhia-se uma sopa ou uma sandes, e a civilização seguia o seu curso.

Agora a ementa parece existir numa dimensão paralela. Para consultar a sopa do dia é preciso localizar o telemóvel, verificar a bateria, apontar a câmara ao código, aceitar cookies e provar à máquina que se continua humano. O Matuto nunca percebeu esta última exigência. Nem todas as pessoas que conhecera passariam no teste.

Antigamente os cafés eram lugares onde se falava com pessoas. O empregado recomendava a sopa. Dizia que o arroz de pato tinha saído particularmente feliz nesse dia. Alertava para a mousse de chocolate. Havia troca de palavras, opiniões e, nos dias mais felizes, amizade.

Hoje conversa-se com interfaces. O empregado continua presente, mas foi promovido a assistente do QR code. Já não entrega a ementa. Limita-se a apresentar o cliente ao código.

O Matuto olhou novamente para o quadrado negro. Sentia-se encurralado. Havia qualquer coisa de profundamente misterioso naquele objecto. Lembrou-se de Jorge Luis Borges.

A famosa Biblioteca de Babel continha todos os livros possíveis. O QR code parecia aspirar ao mesmo. Dentro daquele pequeno quadrado escondiam-se sopas, sobremesas, hambúrgueres, saladas, promoções, fotografias reluzentes, programas de fidelização e, com alguma probabilidade, pelo menos meia dúzia de segredos de Estado. Era o universo inteiro reduzido a dois centímetros quadrados.

E, no entanto, ninguém parecia capaz de responder à pergunta mais simples de todas:

— A sopa é boa?

A questão parecia ultrapassar as capacidades da tecnologia moderna. O Matuto começou então a imaginar o futuro. Talvez um dia um galão exija reconhecimento facial. Uma torrada, um código de confirmação. E um pastel de nata, uma actualização qualquer. Quanto ao descafeinado, já é castigo suficiente.

Não seria de excluir que as bicas viessem protegidas por criptografia militar.

Dizem que a tecnologia veio simplificar a vida. O Matuto entrou apenas para beber um café e já se sentia a meio dum curso de informática.

Por fim, a empregada, compadecida daquela anomalia ambulante que insistia em viver sem telemóvel, trouxe-lhe uma ementa em papel que parecia uma relíquia arqueológica. O Matuto consultou-a com emoção. As letras estavam no sítio. As páginas obedeciam às leis da física. Nada piscava, actualizava ou precisava de bateria.

Por esta altura já perdera a curiosidade pela sopa do dia.

Acabou por pedir apenas um café.

Felizmente, ainda não exigiam palavra-passe para o beber.