O Matuto acordou com o escarcéu. Não era o casal palrador de maritacas. Não eram os sabiás-laranjeira. Não eram os tucanos, muito menos os pardalitos do telhado. Era... ora essa! Era uma motosserra. Às seis e meia da manhã!
O Matuto saiu lá fora. Ao fundo da Casa das Pontes, extra muros, um troglodita estava empoleirado num ipê, empunhando uma enorme motosserra. Em atitude bélica, o energúmeno desferia golpes na indefesa árvore. De forma sistemática, decepava ramo após ramo.
O Matuto sentiu os olhos humedecerem. Não era alergia. Era indignação. Que malvadeza! Aquela árvore alimentara bem-te-vis, dera guarida a bandos de tucanos, albergara canários, pombinhas, sacis, curiós, azulinhos... e agora estava a ser executada.
Parece que certas árvores, sobretudo as antigas, robustas e elegantes, dessas que embelezam o espaço público com muita folha e alguma dignidade, despertam a ira de certos humanoides. Que escândalo vegetal é este! E vai daí pegam num machado eléctrico e zás: vira, vira, pás-pás.
Este ipê está a ser assassinado ao vivo. Vruuummm!
Há tempos, o Matuto soube duma árvore numa praça que adoecera porque alguém despejara cal junto ao seu tronco. Era um flamboyant. Sofreu em aflição imponente. A sua seiva flamejante, corrompida pelo veneno; a morte espalhando-se pelos ramos.
No caso do flamboyant, o Matuto tentou salvar a bela árvore. Como não existe um serviço de emergência para árvores, consultou o farmacêutico da esquina — homem de corpo largo e coração ainda maior.
O bom homem fez algumas perguntas pertinentes sobre a forma das sementes, as folhas e a cor das flores. O Matuto pôs-se de aflições. Por ser daltónico, não tinha informações inteiramente fidedignas nessa matéria. Depois de algumas cautelas e caldos de galinha, o farmacêutico comoveu-se e deu o diagnóstico: sulfato de ferro.
Este ipê está a ser trucidado diante dos olhos raivosos do Matuto. Vruuummm!
O remédio foi aplicado às raízes do flamboyant. E deu-se o milagre. A formosa árvore abriu-se num leque de fogos de artifício. Os seus galhos, semanas depois, inclinavam-se agradecidos sob o peso das flores. Seriam vermelhas? Seriam rosas? O Matuto não sabia dizer. Sabia apenas que nunca existira um flamboyant tão gracioso.
Quando a brisa sopra, as suas folhas farfalham e as flores parecem tilintar de prazer. Sozinha, a árvore promove a primavera: luminosa, vigorosa, quase divina. O sorriso dos deuses brilhando entre a folhagem.
O ipê que dava tanta alegria ao Matuto dá os últimos suspiros. Vruuummm!
O Matuto acha que deveria existir uma lei que tratasse especificamente destas agressões contra o mundo vegetal. Porque há cidadão que, deixado à rédea solta, fará da Tapada de Monsanto ou da Amazónia dois carecas de respeito. Cada árvore devia ser como as vacas na Índia: intocável. Até Deus, ao colocar os nossos avós no Éden, recheou o jardim de árvores. Donde se conclui que a palavra bíblica continua a alertar — e continua a acertar.
Vruuummm! O ipê estava reduzido a um esqueleto de ramos.
É crime não perceber a obra de arte que é uma árvore. Aquele prodigioso aparelho vivo é o milagre subterrâneo da raiz, o milagre aéreo da clorofila. É sombra. É abrigo. É alimento. É morada. É vida.
Na Casa das Pontes, entretanto, a passarada anda atarefada a construir ninhos. As pombas, os pardais e as andorinhas disputam o território, arbusto a arbusto, beiral a beiral. As azáleas rosas e vermelhas explodem em flor e salpicam a paisagem de botões.
A primavera está a caminho. Mas o ipê não irá participar da festa.
Na face tristonha do Óscar, a lagartixa residente das Pontes, o Matuto julgou ver uma lágrima. Aproximou-se. Era uma gota de orvalho.
Mas naquela manhã até o orvalho parecia chorar.