O Matuto não gosta de melgas (pernilongos, no Brasil, por favor). É do conhecimento público que existem melgas de duas pernas. O Matuto também não gosta dessa gente. São uns chatos. Mas aqui falamos do insecto ligeiramente corcunda que tem uma picada irritante e uma vocação natural para o sadismo.
Na ‘Casa das Pontes’ as tarefas domésticas estão bem definidas. A função do zumbidor é azucrinar a cabeça do Matuto e de Dona Sirlei, sua gentil esposa. Ao passo que compete ao Matuto, seja de que forma for, caçar o bicho. Vale tudo: raquetes eléctricas, pulverizadores de veneno, pastilhas, repelentes, ripadas com revistas, jornais, livros, cajados, canas, bordoadas, bengaladas, toalhadas… Na maior parte dos casos a coisa vai no tapa (estalo, em Portugal, por favor). A eficácia destes métodos deixa muito a desejar. O resultado é um regabofe aéreo na ‘Casa das Pontes’ e duas criaturas humanas a espancarem o vazio.
Há algumas luas, o Matuto e Dona Sirlei foram passar férias num hotel de luxo na Mata Atlântica. O litoral brasileiro está coberto, em grande parte, por essa floresta de biodiversidade indecente. E bota diversidade nisso. Uma das espécies mais conhecidas é o mico-leão-dourado, macaquinho catita e fotogénico. Mas também existem o sapo-pingo-de-ouro, o porco-do-mato, o macaco-guigó, o pintor-verdadeiro, o macuco, a onça-pintada, a harpia, o tucano, o papagaio-de-cara-roxa, o muriqui e o sabiá-laranjeira. Nas espécies vegetais, além do famoso pau-brasil, há bromélias, orquídeas, samambaias, araucária e palmito-juçara. E, claro, o verdadeiro dono da reserva: o famigerado pernilongo.
Este bicharoco é maldoso. Cruel. Fica a rodopiar na cabeça da gente até provocar automutilação involuntária. O ser humano passa a vida a dar bofetadas nas próprias orelhas como se estivesse em guerra consigo mesmo. Não há estatística fiável que prove a morte de um único pernilongo à estalada. Mas a humanidade insiste. E as orelhas sofrem. Uma maçada!
Hora de recolher no hotel. A cama tinha uma tela de tecido a cobri-la toda. Anti-melga. Estupendo. Nas tomadas, pastilhas repelentes. O Matuto — por causa das tosses — borrifou o quarto com insecticida até o ar adquirir textura. Aquele cheiro tóxico no ar. Dona Sirlei torceu o elegante nariz.
Duas da manhã. Hei!!! Quem aparece? (não foram as Doce, não!) Um pernilongo danado. Um autêntico Bin Laden dos invertebrados. Um safado de seis patas! Foi directo às orelhas que como Duas Torres Gémeas esperavam inocentes o ataque. O Matuto armado de spray bélico e toalha molhada foi à luta. Não foi a Guerra dos Cem Anos, mas teve animosidade. No ar o Bin Laden fazia curvas e dava guinadas, evitando os ataques furibundos do Matuto. O bicharoco tinha a ciência do sumiço. Era já alta madrugada quando o Matuto acertou uma bordoada que salpicou a parede de sangue. Sangue Matutano, claro. Dona Sirlei dormia impávida e serena na sua cama de rainha, indiferente às tragédias militares do Matuto.
Na noite seguinte foi feita uma inspecção aos aposentos reais antes do Matuto e Dona Sirlei se abrigarem na cama transformada em tenda. Duas da manhã. Hei!!! O pirata dos ares voltou. Teria vindo do Afeganistão, do Cazaquistão, do Quirguistão, do Uzbequistão, do Turcomenistão, do Tajiquistão, do Azerbeijão? O Matuto não sabe a origem deste terrorista. Devia ser gémeo do cadáver estampado na parede. Nesta convivência estafada, o Matuto já reconhecia traços de família: o voo picado em direcção às orelhas, o zumbido briguento, o esfregar irónico das patas. Havia ali um DNA canalha.
Que fazer?
O Matuto resolveu negociar. De toalha branca no ar, parlamentou com o patife. Houve tréguas. A solução foi diplomática: o Matuto deixava o dedão do pé de fora do tecido protector, à mercê do crápula voador. O acordo previa uma única ferroada por noite. Longa, sôfrega, mas única.
Conclusão: o dedão do pé do Matuto mirrou, ficou pálido, débil e tristinho. O vampiro aéreo engordou ao ponto de ter dificuldades em vôos rente ao chão.
O Matuto aprendeu que a paz tem sempre um preço. Às vezes é um tratado entre nações. Às vezes é apenas um dedão entregue à diplomacia dos insectos. A civilização começou assim: alguém cansou-se de lutar e resolveu negociar com o que zumbia mais alto.