O Matuto, com a chegada do Inverno, dá em cismar. Os antigos diziam: “está a pensar na morte da bezerra”. O provérbio, ao que consta, vem de uma história judaica: um rei sacrificou uma bezerra querida do filho como redenção pelos pecados. O rapaz nunca mais se recompôs e viveu a remoer a tragédia até morrer de tristeza. O Matuto não vai tão longe — mas reconhece que o frio, quando entra pelos ossos, abre sempre a porta a uma certa melancolia. E, com ela, chegam os devaneios. E também algumas baboseiras modernas.
A mais habitual é dizer que o aquecimento global causa danos irreparáveis à natureza e que Portugal caminha a passos largos para se tornar num Saara com sardinhas. Na imaginação destes apocalípticos, em breve teremos camelos a pastar na Avenida da Liberdade e relatórios científicos a explicar que a culpa é nossa por termos respirado em excesso. O Matuto escuta, acena com gravidade e puxa pelo chapéu: já assistiu a vários fins do mundo adiados por falta de comparência.
Ora, o Matuto habituou-se às oscilações do clima como quem se habitua às birras humanas: com resignação e um certo humor cansado. É uma das vantagens de envelhecer. Além disso, um cavalheiro não se perde em minudências, nem dá confiança a tempestades com nome próprio. Era só o que faltava! No tempo em que o Matuto era Matutinho, as tempestades chamavam-se simplesmente “Inverno”. E cumpriam o serviço sem conferências de imprensa.
Dona Celeste, a ilustre mãe do Matuto, acreditava nas virtudes curativas - e quase literárias - do “Vicks Vaporub”. Havia o boião de pomada, e os inaladores em forma de batom, objectos de uma ciência doméstica respeitável. Dona Celeste esfregava o “Vicks” maternalmente no peito do Matutinho. Parece que o óleo de eucalipto, o mentol e a cânfora tinham propriedades antitússicas e desentupiam as vias respiratórias. O carinho de Dona Celeste ajudava. Sem dúvida! Porém, o Matuto guarda na ventania da memória a impressão de que o “Vicks” era um antídoto para as gripes, renites, sinusites, reumatismos, artrites, entorses, acnes e maleitas existenciais, assim como uma forte prevenção dos desalentos metafísicos, e das recaídas na poesia lúgubre Portuguesa. Ainda hoje Florbela Espanca é escorraçada da ‘Casa das Pontes’ pelas receitas médicas.
Acontece que o Matuto não tem a solução, nem para os males da existência, nem para esta ‘doença Portugesa’, chamada despreparo – que cada tempestade expõe com pontualidade pedagógica. O segredo reside na atitude morigerada de não ficar demasiado descontente com o mundo. Ele, o mundo, não é perfeito. E nunca será, deste lado do céu. O Matuto sugere que aceitar este facto, não repara telhados nem endireita governos, mas poupa muito sofrimento desnecessário. Além disso o “Vicks’ de antanho continua disponível: não cura a condição humana, mas alivia a febre colectiva. Nunca se deve desprezar os méritos do óleo de eucalipto, o mentol e a cânfora – exclama o Matuto.
O Matuto desconfia sempre das epidemias morais da época, sobretudo das que vêm acompanhadas de léxicos catastrofistas que mudam a cada cinco anos. Entre profetas do fim do mundo e os improvisos Portugueses, ele prefere a terapêutica doméstica: um chá
quente e a antiga confiança no eucalipto, no mentol e na cânfora. O mundo continuará a ranger. Mas enquanto houver Inverno, e um resto de bom senso, o Matuto não pensa na morte da bezerra — pensa apenas que há gripes que passam, tempestades que assolam, governos desleixados e ruminações dum velho a prestar contas à eternidade.