O Matuto foi asmático durante muitos anos. A asma era uma visita caprichosa. Aparecia sempre em momentos inconvenientes. Atacava com a descida da noite. E retirava-se com o sol. Houve uma noite, em Londres, em que um jantar terminou numa farmácia. Com ameaça de balões de oxigénio, e tudo. Felizmente, passou.
A asma ensinou-lhe uma palavra bonita: hipersensibilidade.
Os médicos explicavam que certos pulmões reagiam exageradamente ao pó, ao pólen, ao frio ou ao perfume da namorada. O amor é cego, mas o nariz tem critérios muito próprios.
Foi precisamente essa palavra que surgiu, dias atrás, numa conversa na Casa das Pontes.
O Sr. Rocha, visita letrada das Pontes e homem que lê mais jornais do que o próprio quiosque, apareceu indignado.
— Hoje toda a gente parece ofender-se com qualquer coisa. Há uma hipersensibilidade no ar.
A Belinha, sempre prática, encolheu os ombros.
— Eu continuo apenas alérgica a camarão.
O Marcello, visita reaccionária das Pontes e especialista em conclusões definitivas, declarou sem hesitar:
— Antigamente havia alergias. Hoje há susceptibilidades.
O Matuto ficou a matutar. Lembrou-se de Marcel Proust, que vivera grande parte da vida a negociar tréguas com a asma. Talvez por isso tivesse aprendido a respirar tão bem dentro das frases.
Durante muitos anos acreditara que a asma era um problema dos pulmões. Os médicos diziam que a asma era uma hipersensibilidade dos brônquios. O Matuto começou a suspeitar que essa sensibilidade exagerada sofrera uma curiosa migração. Deixara os pulmões em paz e instalara-se de armas e bagagens na massa cinzenta.
Hoje há quem seja alérgico a opiniões diferentes.
Outros não suportam uma piada.
Há quem entre em aflição sempre que alguém discorda dele.
E existe já uma vasta população que exige avisos prévios garantindo que o espaço é seguro, inclusivo e emocionalmente confortável antes de se aventurar numa conferência ou ver um filme.
O Matuto acredita obstinadamente que Homero, Shakespeare, Camões, Eça ou Dostoiévski dificilmente sobreviveriam ao escrutínio das sensibilidades contemporâneas. Felizmente escreveram antes de existirem formulários de risco emocional.
O Sr. Rocha informou então que certas universidades aconselham os alunos sobre conteúdos potencialmente perturbadores.
A Belinha franziu a testa.
— No meu tempo chamavam-se livros.
O Matuto sorriu. Lembrou-se de C. S. Lewis dizer que lemos para descobrir que não estamos sós. Agora havia quem abrisse um livro apenas para verificar se o autor não escondia ideias tóxicas.
Sempre acreditara que um bom livro servia precisamente para perturbar um bocadinho. Se um romance nunca incomoda ninguém, talvez seja apenas mobília. Kafka afirmava que “um livro é um machado para quebrar o mar gelado dentro de nós”.
O Marcello voltou a colocar ordem na casa.
— Fala-se muito de resiliência. Nunca houve tantos amortecedores.
Silêncio. Pareceu ao Matuto que aquela frase bastava.
Lá fora o Óscar, a lagartixa residente das Pontes, regalava-se ao sol. Descansava.
Sem terapeutas. Sem avisos prévios. Sem filtros emocionais. Sem necessidade de ambientes seguros.
Uma mosca pousou ao seu lado.
O Óscar não se ofendeu, nem exigiu um pedido de desculpas. Limitou-se a estender a língua. A mosca nem soube de que terra era.
As coisas são como são.