O Matuto está com delírios eleitorais. Todo o Brasil parece estar a ferro e fogo com a campanha dos inúmeros candidatos. Há candidatos para todos os gostos e feitio: os patriotas, os reformadores, os salvadores, os indignados, os optimistas profissionais, os especialistas em catástrofes e os vendedores de milagres em bom estado. Há quem prometa mudar o país, mudar tudo e quem prometa até aquilo que ninguém sabia existir.
Foi por isso que o Matuto se lembrou de Cesare Maccari. Maccari pintou um quadro famoso (ver aqui) representando Cícero no Senado romano, enfrentando Catalina. Corria o dia 8 de Novembro do ano 63 a.C. Na pintura, a vida pública de Roma parece espaçosa, elegante e solene. Cícero, a estrela do momento, o “homem bom com o dom da oratória”, aparece junto de um braseiro fumegante, dirigindo-se a uma audiência de senadores vestidos de branco.
O Matuto olhou para aquilo e pensou que a política, pelo menos na pintura, já teve melhores figurinos.
As roupas romanas do dia a dia eram bastante mais variadas. Túnicas, capas e até calças podiam ser coloridas. A toga era roupa formal. Os próprios romanos chamavam-se gens togata: a raça que usa a toga.
E havia uma razão para a brancura.
A palavra moderna “candidato” vem do latim candidatus, que significa, literalmente, branqueado. Durante as campanhas eleitorais, os candidatos romanos usavam togas especialmente branqueadas. A brancura pretendia mostrar a pureza das intenções políticas. O candidato era, literalmente, o homem branqueado.
O Matuto achou a coisa interessante. Os romanos branqueavam a toga. Os candidatos modernos branqueiam o passado. É como no velho anúncio do OMO: branco mais branco não há. Na política, parece que também não basta ser branco. É preciso ser o mais branquela de todos.
Uns branqueiam a roupa. Outros branqueiam o currículo.
O Matuto imagina que, se Cícero pudesse assistir a um debate eleitoral dos nossos dias, talvez estranhasse menos as promessas do que o figurino. A toga desapareceu, mas a arte do branqueamento continua. Mudaram os tecidos, as câmaras, os microfones e os palcos. A aparência de virtude, essa, continua em cartaz.
Naqueles tempos, o candidato precisava de uma toga branca. Hoje precisa de um assessor de imagem, uma fotografia conveniente e uma biografia devidamente passada a ferro.
O Sr. Rocha, visita letrada das Pontes, procura em Cícero a grandeza perdida da oratória. A Belinha, visita conservadora das Pontes, desconfia de qualquer homem demasiado branco. O Marcello, visita reaccionária das Pontes, acha que a República começou a sua decadência no exacto momento em que deixou de exigir togas.
O Matuto prefere não tomar partido.
Talvez por isso a campanha seja um exercício de branqueamento. Branqueia-se o passado, branqueiam-se os erros, branqueiam-se as contradições. Algumas manchas desaparecem completamente. Outras, com boa iluminação, tornam-se ainda mais visíveis. O Matuto não sabe se a política melhorou desde Cícero.
Sabe apenas que o branco continua a vender muito bem.