Há uma verdade que, por mais incómoda que seja, não pode continuar a ser ignorada: Portugal voltará a ser atingido por um grande sismo. Não sabemos quando acontecerá, porque a ciência ainda não consegue prever a data de um terramoto mas sabemos que acontecerá. A nossa localização geográfica e o conhecimento acumulado pela sismologia não deixam margem para dúvidas quanto à existência de um risco sísmico significativo, particularmente, nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo e do Algarve.
A questão, por isso, não é se devemos estar preparados. A verdadeira questão é saber se estamos a fazer o suficiente para reduzir o impacto de uma catástrofe que poderá mudar o país em poucos minutos.
Nos últimos anos assistimos a uma maior preocupação com a sensibilização da população. Foram instaladas placas de identificação das zonas de perigo de tsunami e definidos pontos de encontro para situações de emergência. Estas iniciativas têm mérito e contribuem para aumentar a consciência pública sobre os riscos. No entanto, seria um erro perigoso acreditar que estas medidas representam uma preparação adequada para um evento de grande magnitude.
As placas informam, mas não protegem.
Num cenário de destruição generalizada, o que fará verdadeiramente a diferença será a capacidade das infraestruturas críticas resistirem ao sismo e continuarem operacionais. É precisamente neste ponto que Portugal enfrenta um dos seus maiores desafios.
Ao longo dos últimos anos, especialistas em engenharia sísmica e proteção civil têm alertado para a vulnerabilidade de diversos edifícios públicos. Entre eles encontram-se hospitais, escolas, lares, quartéis de bombeiros, esquadras, pontes e outras infraestruturas essenciais ao funcionamento do Estado. Muitos destes edifícios foram construídos numa época em que os regulamentos sísmicos eram menos exigentes ou não contemplavam os conhecimentos científicos atualmente disponíveis. Outros necessitam de avaliações estruturais e de intervenções de reforço que continuam por realizar.
Os hospitais merecem uma atenção muito particular. São o coração da resposta a qualquer grande emergência. É para eles que convergem os feridos, é neles que trabalham profissionais treinados para salvar vidas e é deles que depende grande parte da capacidade de resposta do país. Contudo, vários especialistas têm advertido que algumas unidades hospitalares apresentam fragilidades estruturais preocupantes perante um grande sismo.
O problema não é, apenas, o risco de danos nos edifícios. Mesmo que um hospital não colapse, bastam falhas estruturais, cortes de energia, interrupções no abastecimento de água ou danos nos equipamentos para comprometer seriamente o seu funcionamento. Um hospital que deixa de operar quando é mais necessário representa uma perda incalculável para toda a sociedade.
É profundamente inquietante pensar que, numa situação de emergência nacional, alguns dos edifícios destinados a salvar vidas possam, eles próprios, tornar-se locais inseguros. A imagem é dura, mas deve servir de alerta. Não para criar medo, mas para despertar responsabilidade.
A preparação para um grande sismo não pode limitar-se às respostas de emergência. Deve começar muito antes, através da prevenção. Isso implica investir na reabilitação sísmica das infraestruturas críticas, reforçar edifícios estratégicos, atualizar permanentemente os planos municipais de emergência e garantir que as novas construções cumpram rigorosamente todas as normas de segurança.
Mas preparar um país significa também preparar os seus cidadãos.
Ainda existe um défice significativo de educação para o risco sísmico. Muitos portugueses desconhecem procedimentos básicos de autoproteção, nunca participaram num simulacro e não possuem um plano familiar para uma situação de emergência. Em países como o Japão ou o Chile, onde os sismos fazem parte da realidade, a prevenção é ensinada desde a infância. Os simulacros são frequentes e a população sabe exatamente como agir nos primeiros segundos após um abalo. Em Portugal, continuamos demasiado dependentes da ideia de que "connosco talvez não aconteça".
A história demonstra precisamente o contrário.
O terramoto de 1755 marcou profundamente a identidade nacional e alterou para sempre a cidade de Lisboa. Desde então, ocorreram outros sismos significativos em território português, embora nenhum com consequências comparáveis. Essa relativa tranquilidade tem criado uma perigosa sensação de segurança que não corresponde à realidade científica.
O investimento na prevenção raramente produz resultados visíveis no imediato. Não gera inaugurações mediáticas nem benefícios políticos rápidos. Talvez por isso seja frequentemente adiado. No entanto, cada euro aplicado no reforço sísmico de edifícios essenciais representa um investimento na proteção da vida humana e na capacidade de recuperação do país após uma catástrofe.
Portugal necessita de uma estratégia nacional de longo prazo que vá muito além da sinalização de zonas de risco. É fundamental realizar avaliações independentes às infraestruturas críticas, estabelecer prioridades de intervenção, garantir financiamento para obras de reforço estrutural e acompanhar de forma transparente o cumprimento dessas metas. A segurança sísmica deve ser entendida como uma política de Estado e não como uma medida ocasional.
As placas de perigo de tsunami são úteis. Os pontos de encontro são necessários. Os planos de evacuação são indispensáveis. Mas nada disso substituirá hospitais capazes de permanecer operacionais, escolas seguras para proteger as crianças, pontes resistentes para garantir a mobilidade dos meios de socorro e edifícios públicos preparados para continuar a servir a população quando tudo o resto vacilar.
Não podemos impedir que a terra trema. Mas podemos decidir, desde já, se queremos enfrentar esse dia com preparação ou com improviso.
Quando o próximo grande sismo ocorrer, já não haverá tempo para reforçar paredes, consolidar hospitais ou corrigir décadas de adiamentos. As decisões que salvarão vidas serão aquelas que tivermos a coragem de tomar hoje.
Porque a prevenção não é um luxo nem um excesso de prudência. É a mais responsável forma de proteger um país. E, perante um risco conhecido, adiar a prevenção é correr o risco de transformar uma catástrofe natural numa tragédia humana de proporções muito maiores.
Docente, Escritora e Educadora Social