terça-feira, 18 ago. 2026

Menos voltas, mais reviravoltas

Mas onde está a mesma exigência para quem coloca milhões de toneladas de plástico no mercado? Onde estão as metas, verdadeiramente, ambiciosas para reduzir a produção de embalagens descartáveis? Onde estão os incentivos para substituir o plástico por materiais reutilizáveis ou biodegradáveis?

Primeiro chegaram as tampas de plástico presas às garrafas, agora surge o sistema Voltas, que promete incentivar a devolução de embalagens através de um sistema de depósito.

A ideia parece irrepreensível: devolver embalagens para aumentar a reciclagem e ainda ganhar uns cêntimos.

Mas será legítimo vender esta medida como uma resposta à crise ambiental?

Obviamente que não.

Vivemos numa época em que os governos parecem preferir medidas que produzam boas manchetes em vez de reformas que produzam resultados.

O sistema Voltas insere-se nessa lógica. É uma iniciativa que pode melhorar a recolha de algumas embalagens, mas que não altera o essencial: continuamos a fabricar, consumir e descartar plástico em quantidades absurdas.

O discurso político insiste na reciclagem porque é uma solução confortável. Não obriga a enfrentar os grandes interesses económicos nem a questionar um modelo de consumo assente no descartável. No fundo, diz-se ao cidadão: "devolva a garrafa e faça a sua parte". Entretanto, milhões de novas garrafas continuam a sair diariamente das fábricas para regressarem, pouco tempo depois, ao circuito dos resíduos.

A pergunta que importa fazer é simples: porque continuamos a concentrar tantos esforços em reciclar plástico, em vez de reduzir drasticamente a sua produção?

A reciclagem é importante, mas nunca será suficiente. Nenhum sistema de recolha conseguirá acompanhar um modelo económico que produz embalagens descartáveis a um ritmo desenfreado. O verdadeiro desafio não é reciclar mais; é produzir menos lixo.

Há poucos meses, a Europa apresentou as tampas presas às garrafas como mais uma vitória ambiental. Hoje, muitos consumidores veem apenas uma tampa incómoda que pouco altera a realidade dos oceanos, dos rios ou das florestas.

Agora surge o sistema Voltas, novamente envolto numa narrativa otimista. A sucessão destas medidas transmite uma ideia perigosa: a de que pequenos gestos administrativos bastam para resolver uma crise ambiental global.

Não bastam.

É igualmente preocupante a forma como a responsabilidade continua a ser colocada, sobretudo, sobre os cidadãos.

O consumidor separa resíduos, devolve embalagens, paga depósitos e adapta-se às novas regras. Mas onde está a mesma exigência para quem coloca milhões de toneladas de plástico no mercado? Onde estão as metas, verdadeiramente, ambiciosas para reduzir a produção de embalagens descartáveis? Onde estão os incentivos para substituir o plástico por materiais reutilizáveis ou biodegradáveis?

Enquanto isso não acontecer, estaremos, apenas, a gerir melhor um problema que continuamos a alimentar.

Se quisermos um país mais sustentável, precisamos de políticas que tenham coragem para ir à raiz da questão. Precisamos de promover sistemas de reutilização em larga escala, incentivar embalagens duradouras, reduzir o consumo de plástico de utilização única, investir seriamente em investigação de novos materiais e reforçar a educação ambiental desde a escola. Precisamos também de responsabilizar quem produz e lucra com este modelo, em vez de fazer recair quase todo o esforço sobre quem compra uma garrafa de água.

O ambiente não se protege com campanhas de marketing ecológico nem com medidas que dão a sensação de ação sem alterar a essência do problema. Protege-se quando há vontade política para mudar modelos de produção e de consumo.

O sistema Voltas poderá aumentar a taxa de recolha de embalagens. É positivo. Mas não confundamos um instrumento de gestão de resíduos com uma estratégia de defesa do planeta. São coisas diferentes.

O maior risco destas iniciativas é criarem uma ilusão coletiva de missão cumprida.

Acreditamos que estamos a salvar o ambiente porque devolvemos uma garrafa, quando, na verdade, continuamos a viver num sistema que produz lixo em excesso, desperdiça recursos e transfere para os cidadãos a responsabilidade por um problema que começa muito antes de a embalagem chegar às suas mãos.

Acresce que existe um paradoxo difícil de ignorar. Nunca se falou tanto de sustentabilidade e, no entanto, nunca se produziu tanto plástico. As prateleiras dos supermercados continuam repletas de embalagens desnecessárias, muitos produtos são excessivamente acondicionados e a cultura do "usar e deitar fora" permanece praticamente intocada. O sistema Voltas surge, assim, como uma resposta ao fim da cadeia, quando o verdadeiro problema está no seu início.

É também inevitável questionar o custo-benefício desta medida. Quanto custará a instalação, manutenção e operação deste sistema? Quantos recursos públicos e privados serão investidos para recolher embalagens que, idealmente, nem sequer deveriam existir? Não faria mais sentido canalizar uma parte desse investimento para apoiar empresas que desenvolvem embalagens reutilizáveis, incentivar o comércio a granel ou criar benefícios fiscais para quem reduz efetivamente o uso de plástico?

A verdade é que as grandes transformações ambientais nunca foram alcançadas através de pequenas adaptações ao consumo. Foram alcançadas quando houve coragem para alterar modelos económicos, regulamentar mercados e exigir responsabilidade aos produtores. É precisamente essa coragem que continua a faltar.

Portugal tem condições para ser uma referência na economia circular, mas isso exige muito mais do que sistemas de devolução de garrafas. Exige uma estratégia nacional que privilegie a prevenção em detrimento da remediação. Porque reciclar é importante, mas evitar que o resíduo exista é, incomparavelmente, melhor.

Enquanto continuarmos a celebrar medidas que atacam apenas os sintomas, estaremos a adiar a discussão essencial. A verdadeira sustentabilidade não se mede pelo número de garrafas devolvidas, mas pela capacidade de reduzir o número de garrafas produzidas. Essa é a métrica que realmente importa.

O sistema Voltas poderá melhorar alguns indicadores estatísticos e aumentar as taxas de recolha, mas dificilmente mudará o rumo da crise ambiental se não for acompanhado por políticas muito mais ambiciosas.

O planeta não precisa de mais campanhas para reciclar. Precisa de menos plástico, menos desperdício e mais coragem política. Tudo o resto, por muito bem-intencionado que seja, corre o risco de ser apenas uma forma sofisticada de fingirmos que estamos a resolver um problema que continua a crescer diante dos nossos olhos.

Docente, Escritora e Educadora Social