terça-feira, 08 set. 2026

Deixem de chamar bowls às tigelas

Uma tigela de fruta passa a ser uma fruit bowl. Uma tigela de salada e frango transforma-se numa poke bowl. E quanto mais inglês usamos, mais parece que aquilo que fazemos diariamente se torna, automaticamente, mais moderno.

Há palavras que entram numa língua porque fazem falta. Outras, porque são inevitáveis. E depois há aquelas que entram simplesmente porque, de repente, parecem mais modernas, mais sofisticadas ou mais cosmopolitas. E é aqui que, talvez, valha a pena questionar: será mesmo necessário chamar bowl a uma tigela?

Nos últimos anos, o português tem sido inundado por estrangeirismos. Alguns são perfeitamente justificáveis, sobretudo quando designam conceitos, tecnologias ou realidades para os quais não existe uma palavra portuguesa equivalente. Mas, outros, são absolutamente dispensáveis. Não acrescentam rigor, não tornam a comunicação mais eficaz e, muitas vezes, servem apenas para dar um ar mais sofisticado a coisas que já têm nome em português.

Uma tigela é uma tigela. Sempre foi.

Agora, de repente, encontramos bowls nos menus, nas redes sociais, nas revistas, nos restaurantes e até na publicidade. Uma tigela de fruta passa a ser uma fruit bowl. Uma tigela de salada e frango transforma-se numa poke bowl. E quanto mais inglês usamos, mais parece que aquilo que fazemos diariamente se torna, automaticamente, mais moderno.

E não é verdade. Aquela tigela continua a ser apenas uma tigela.

E este é apenas um exemplo de um fenómeno muito maior: a substituição desnecessária de palavras portuguesas por palavras estrangeiras.

Temos feedback, quando podemos dizer retorno, opinião ou apreciação. Temos deadline, quando temos prazo. Usamos meeting, quando temos reunião. Temos workshop, quando podemos dizer oficina, sessão prática ou formação. Usamos look, quando temos visual ou aparência. Temos outfit, quando podemos simplesmente falar de vestuário. Temos delivery, quando existe entrega ao domicílio. Temos brunch, que designa uma refeição específica entre o pequeno-almoço e o almoço, e nesse caso a palavra estrangeira pode ter uma função real. Mas precisamos mesmo de importar palavras para tudo?

O problema não está em utilizar estrangeirismos. Uma língua viva recebe palavras, transforma-as, adapta-as e incorpora-as. O português sempre o fez. O problema surge quando deixamos de utilizar uma palavra portuguesa que funciona, perfeitamente, apenas porque a palavra inglesa parece mais elegante.

É, particularmente, preocupante quando esta tendência chega à alimentação.

Temos tigelas, taças, pratos, refeições, lanches, sandes, sobremesas, batidos. Mas basta acrescentar uma palavra inglesa e parece que o produto ganha outra categoria social.

Uma tigela de fruta é uma bowl. Uma sandes transforma-se num sandwich. Um batido passa a smoothie. Uma reunião torna-se um meeting. Uma pausa para café converte-se num coffee break. Uma loja passa a store. Um espaço de trabalho é um coworking. E, muitas vezes, já nem nos apercebemos de que estamos a trocar palavras portuguesas por equivalentes estrangeiros sem qualquer necessidade.

É como se tivéssemos desenvolvido uma espécie de complexo linguístico: parece que, para algumas pessoas, dizer uma coisa em inglês lhe dá imediatamente mais valor.

E não é apenas uma questão de palavras. É uma questão cultural.

A língua é uma das formas mais importantes de preservar a nossa identidade. Não significa fechar o português numa redoma, rejeitar outras línguas ou combater o inglês. Pelo contrário: aprender línguas estrangeiras é uma riqueza extraordinária. Saber inglês, espanhol, francês ou qualquer outra língua abre portas, aproxima culturas e permite comunicar com o mundo.

Mas falar bem uma língua estrangeira não implica falar mal a nossa.

Podemos dominar o inglês e continuar a dizer tigela. Podemos conhecer a palavra bowl e escolher conscientemente não a utilizar quando estamos a falar português. Podemos trabalhar numa empresa internacional e continuar a dizer reunião em vez de meeting. Podemos conhecer o conceito de deadline e continuar a respeitar o nosso prazo.

Aliás, conhecer outras línguas deveria tornar-nos mais conscientes da nossa própria língua, e não o contrário.

O excesso de estrangeirismos nem sempre torna a comunicação mais acessível. Pelo contrário. Quem não domina o inglês pode ficar excluído de mensagens que poderiam ser perfeitamente claras em português.

Imagine-se um restaurante dirigido a todos os portugueses, mas cujo menu parece escrito para uma agência de publicidade internacional. Bowls, toppings, smoothies, snacks, brunch, take away, delivery. Para algumas pessoas será, perfeitamente, natural. Para outras, será, simplesmente, uma barreira desnecessária.

Uma língua não deve servir para excluir. Deve servir para comunicar.

E comunicar bem significa escolher as palavras certas, não, necessariamente, as palavras mais modernas.

É claro que há estrangeirismos que fazem sentido. Há conceitos novos que chegam de outros países e para os quais uma palavra estrangeira se torna rapidamente universal. Há áreas, sobretudo na tecnologia, ciência, economia e cultura, onde a influência internacional é inevitável. Algumas palavras são incorporadas porque respondem a necessidades reais.

Mas outras são apenas moda.

E as modas passam.

A língua, essa, fica.

Por isso, da próxima vez que alguém disser bowl, talvez possamos simplesmente perguntar: “Quer dizer tigela?”

Não por purismo. Não por nacionalismo linguístico. Não por rejeição do inglês.

Mas porque uma língua que tem palavras para dizer aquilo que queremos dizer não precisa de pedir palavras emprestadas só para parecer mais sofisticada.

O português é uma língua rica, expressiva e capaz de acompanhar a modernidade. Não precisa de ser modernizado à força através do inglês.

Precisamos, isso sim, de voltar a valorizar as palavras que temos.

Porque uma tigela continuará a ser uma tigela, mesmo que venha acompanhada de quinoa, frutos vermelhos, sementes de chia e uma deliciosa sopa da pedra.

Chamem-lhe tigela. O português agradece.