Este fim-de-semana, no supermercado, vi uma mãe a caminhar com duas filhas, uma de cada lado. Teriam entre sete e dez anos. Fiquei embevecida ao observar a mais nova, muito encostada à mãe, pousar o rosto docemente no seu braço, enquanto fechava os olhos e esboçava um sorriso de puro deleite.
O colo da mãe não é comparável a nenhum outro. Quando é bom, não só é insubstituível, como determinante. É enorme, quentinho, aconchegante, contentor. É um lugar cativo onde se cabe inteiro, para sempre.
O primeiro colo acontece logo após o nascimento. É nele que o bebé começa a descobrir e a compreender o mundo. É a primeira vez que sente a mãe por fora, que sente o seu cheiro, o seu calor e o seu abraço. Quando se deita sobre o seu peito e sente a sua pele com a pele da mãe, forma-se uma espécie de membrana entre ambos, onde se gera o primeiro vínculo.
Não se trata apenas de um colo físico. É o nascimento do contacto emocional, que servirá de base ao desenvolvimento psicológico da criança. Numa fase de total dependência, o colo e as respostas da mãe constituem o primeiro contacto do bebé com o mundo. É através dessa experiência que o mundo se apresenta como mais ou menos seguro e fiável e é também por essa via que o bebé começa a conhecer-se a si próprio e a construir a sua identidade.
A forma como é recebido e cuidado ao longo dos primeiros tempos é fundamental para o desenvolvimento da sua confiança básica e influenciará profundamente a forma como, no futuro, se relacionará com o mundo. Quanto mais seguro, previsível e aconchegante for o primeiro colo, quanto mais atentas e carinhosas forem as respostas da mãe às suas necessidades, maior será o sentimento de segurança do bebé e mais sólidas as bases para um desenvolvimento emocional saudável.
Ou seja, quanto mais firmes forem as bases, mais apta estará a criança para se lançar no mundo com confiança, para explorar, descobrir e relacionar-se com os outros e formar uma imagem de si própria como alguém que pertence, que é desejado e amado, digno de cuidado e de proteção. A relação inicial com a mãe será o alicerce de todas as relações futuras.
Por outro lado, quando o colo falha, quando não é suficientemente bom ou é sentido como inconsistente, pode instalar-se uma sensação de insegurança que a criança transporta consigo para a vida adulta, com implicações na forma como se relaciona consigo própria, com os outros e com o mundo que a rodeia.
Recentemente, uma colega falou-me do tormento que a filha está a passar para encontrar uma creche para quando o filho tiver cinco meses. Os primeiros tempos, que deveriam ser de entrega quase exclusiva ao bebé, foram de aflição, burocracias, culpa e desespero. A abertura de mais vagas em creches pode facilitar a vida de muitas famílias, mas não resolve a necessidade fundamental dos bebés de terem uma mãe presente nos primeiros anos.
Possivelmente a criança que vi no supermercado pôde contar com uma mãe suficientemente boa, que lhe ofereceu um colo bom, seguro e contentor. Um colo que levará consigo ao longo da vida, que a fará sorrir sempre com deleite desse lugar querido e confortável. E que lhe permitirá viver, explorar e relacionar-se com o mundo com segurança, curiosidade e confiança.