No regresso de uma viagem ao estrangeiro, chamou-me a atenção uma rapariga que, durante todo o percurso de autocarro até ao aeroporto, esteve a editar no telemóvel uma fotografia em que aparecia num dos sítios mais emblemáticos da cidade.
A viagem durou pelo menos meia hora e, durante todo esse tempo, repetiu os mesmos movimentos: aumentava a fotografia, observava os pormenores, aplicava filtros, voltava à fotografia, aumentava novamente, fazia novas alterações. Tudo de forma rápida e mecânica, denunciando um procedimento já habitual.
Tal como os filtros do telemóvel, também a sua aparência parecia pouco natural: pestanas e unhas postiças, cabelo pintado e roupa escolhida ao pormenor. Não pude deixar de pensar como os filtros do ecrã e os da vida real se começavam a confundir.
A preocupação com a aparência física parece ter ganho uma dimensão crescente, alimentada pelas redes sociais, que potenciam a comparação e a procura de validação; e pelas ferramentas de edição, que permitem construir uma imagem quase impossível de reproduzir na vida real. Torna-se, por vezes, difícil conciliar a imagem que nos devolve o espelho com aquela que vemos diariamente no Instagram e no TikTok.
As crianças são expostas desde cedo a vídeos, danças e conteúdos em que o corpo e a aparência ocupam um lugar central, o que pode contribuir para a construção de ideais de beleza pouco adequados à idade.
Até os rapazes começam desde cedo a revelar a mesma preocupação. O cabelo tornou-se um assunto sério, com um sem-número de cortes, tendências e produtos que obrigam a visitas frequentes ao barbeiro para estar ‘sempre na régua’.
Mas não ficamos por aqui.
Também muitos adultos parecem viver sob esta pressão. Frequentam o ginásio, praticam desporto, cuidam da alimentação, recorrem a suplementos, cremes, tratamentos e, cada vez mais, a procedimentos estéticos, numa tentativa de contrariar a passagem do tempo.
Tal como os mais novos, não são indiferentes à validação. O verão, sobretudo, parece ser uma excelente altura para colher os frutos do esforço feito ao longo do ano.
Num mundo cada vez mais plástico, onde aquilo que é natural parece já não bastar, torna-se difícil para alguns adolescentes resistir à tentação de entrar neste jogo.
Talvez a questão seja mais profunda do que parece.
Não há nada de errado em querer cuidar da aparência. O problema começa quando deixamos de tolerar aquilo que não pode ser corrigido, editado ou aperfeiçoado, ou essa preocupação ocupa um espaço central na nossa vida.
Quando uma fotografia tem de ser retocada até ao limite antes de ser publicada, corremos o risco de começar a olhar para nós próprios como uma imagem a precisar de ser constantemente melhorada.
No entanto, aprender a lidar com a imperfeição também faz parte de um crescimento saudável.
Por isso, no meio desta pressão, ver uma adolescente que se apresenta simplesmente como é, sem maquilhagem ou filtros, pode ser uma verdadeira lufada de ar fresco.
Não porque devamos deixar de gostar de nos arranjar ou de nos sentir bem com a nossa aparência. Mas porque nos lembra que talvez ainda seja possível existir sem estarmos permanentemente preocupados com a imagem que apresentamos aos outros.
Talvez valha a pena perguntarmo-nos se aquilo que realmente precisamos de corrigir está, afinal, na imagem que mostramos aos outros ou na forma como aprendemos a olhar para nós próprios.