Um dia destes, uma professora de línguas contou-me que avisou os alunos que se recusa a corrigir trabalhos feitos pelo ChatGPT e relatou-me que certa vez, ao confirmar que uma aluna tinha recorrido à inteligência artificial para realizar um trabalho, atribuiu-lhe zero valores e explicou que não podia avaliar um trabalho que não tinha sido feito por ela. A aluna não entendeu a decisão. As ideias eram suas, dizia. A professora tentou então explicar-lhe algo que, até há pouco tempo, parecia evidente: "os erros que poderiam ser corrigidos já lá não estavam". E, com eles, também não estava quem aprende.
Atravessamos um tempo de mudanças profundas, e talvez não seja apenas a tecnologia que obriga a repensar o ensino, mas a própria noção de aprendizagem e, no fundo, o que leva a que os alunos recorram a ela. O que se avalia, afinal, quando se atribui uma nota a um aluno? A correção final de um texto? Um teste em que só existem respostas verdadeiras e falsas ou uma cruz num quadrado? As repostas decoradas dos manuais, mesmo quando os conteúdos são demasiado extensos, complexos e por vezes incompreensíveis? Ou o percurso feito, com as suas hesitações, com tempo, desvios e tentativas?
Um aluno que dá erros, neste momento, é possivelmente um dos melhores alunos da turma. Não porque erra mais, mas porque ainda se autoriza a pensar. Porque ainda arrisca uma resposta que não é garantida, ainda se expõe à possibilidade de falhar, embora com o peso de sentir que não sabe tudo ou que não é capaz. É aquele que ainda resiste ao facilitismo, à inteligência artificial, que é honesto e que se esforça, que pensa, que arrisca e que resiste à ideia de que aprender é sinónimo de acertar.
A valorização excessiva dos resultados, dos números, das classificações e dos rankings, que visa produzir alunos irrepreensíveis, tende a conduzir também ao desalento, ao cansaço e à ansiedade. Pelo que se impõe a pergunta: estamos a formar alunos que sabem e pensam ou alunos que aprenderam a decorar a resposta certa e a não falhar? E o que acontece ao pensamento quando errar ou pensar de forma diferente deixa de ser permitido?
Há qualidades e capacidades, essenciais na formação de um aluno como um todo, que não aparecem na pauta, como o empenho, a dedicação, a irreverência, a originalidade ou o interesse. Como a capacidade para sustentar uma dúvida, para falar em nome próprio, para questionar, para trabalhar com os outros. E os jovens crescem a sentir que jamais serão valorizados por isso, que não têm valor pelo que são, mas pelo que reproduzem. Com a agravante de que os programas são tão extensos e densos que são cada vez mais difíceis de decorar, o que gera mais angústia, ansiedade, sentimentos de incapacidade e desmotivação.
Aprender não é um caminho linear e perfeito que se reflete numa nota fria e seca, na pauta. É um lugar imprevisível e dinâmico, que implica a perda de certeza e de controlo, que tem altos e baixos, avanços e retrocessos. Onde o erro faz parte do percurso e significa que algo está em movimento. E talvez seja aí, nesse espaço imperfeito e incerto, onde ainda existe o erro, que o aluno existe e que se distingue enquanto aprendiz singular, criativo e pensante.