sexta-feira, 05 jun. 2026

O calor das casas cheias e barulhentas

A casa de uma família numerosa não é só uma casa, é uma escola de turmas mistas, onde todos aprendem com todos.

Lembro-me de quando ainda andava no liceu e a minha amiga Luzinha me apresentou o irmão que tinha nascido há pouquíssimo tempo. Levantou-o do berço com a tranquilidade de quem levanta um ‘bebé careca’ e eu fiquei estupefacta. Naquela altura, para mim, um bebé era mais frágil do que a porcelana ou o cristal. Era um bebé! E, com certeza, só os adultos teriam o dom de lhes conseguir pegar sem os deixar cair imediatamente no chão. Mas a Luzinha não era uma menina qualquer. Era, naquele momento, a mais velha de sete irmãos. E, depois, ainda teve mais.

Todas as famílias são diferentes, cada uma com os seus valores, o seu modo de funcionamento, relações e regras. E as famílias numerosas não são exceção. Mas, geralmente, têm entre elas várias coisas em comum. E uma infinidade de histórias para contar.

Por exemplo, uma família numerosa dificilmente sai de casa a horas, porque há sempre alguém sem sapatos. Pelo menos sem um deles. Quando finalmente a centopeia está calçada, ou mesmo que não esteja, a próxima preocupação é a de ser o primeiro a chegar ao carro, que às vezes parece um autocarro da carreira – não só pelo tamanho, mas também porque nunca sai a horas. A partida começa com o jogo das cadeiras, às vezes com o carro já em movimento, onde alguns se sentam ao colo dos outros. Parece que há sempre um lugar a menos, porque, naturalmente, os lugares não são todos iguais. Um é do lado esquerdo, o outro é ao meio, o outro do lado direito, e ainda há a fila de trás. Uns são mais quentes, outros mais distantes, uns mais apetecíveis dependendo da idade, da época do ano ou do humor no momento.

No fundo, numa família numerosa, quase tudo é uma questão de sobrevivência. Pelo melhor lugar, pelo prato mais cheio, pelo tempo de antena à mesa, pela atenção.

O que faz também com que os filhos de uma família numerosa sejam mais tolerantes e pacientes. Mesmo que não queiram ou que nem sempre aparentem. Sobretudo os mais velhos, que já viram vezes sem conta os seus desenhos a ficar rasgados ou riscados, os carrinhos sem rodas ou as barbies sem braços; que já aturaram muito choro e muitas birras, que já tiveram de esperar muitas vezes pela sua vez, para ter atenção, para ter razão...

E, apesar da necessidade de terem coisas só suas, compradas exclusivamente para si, que não chegam em quarta ou quinta mão, partilham com naturalidade, porque estão muito habituados a fazê-lo. Beber um refrigerante inteiro é um luxo, uma sobremesa é muito grande só para um e os gelados da Olá são, claramente os melhores porque não têm de ser divididos.

Uma família numerosa raramente faz amigos na fila do supermercado. Ninguém quer estar atrás de alguém que a cada semana parece estar a preparar-se para o Apocalipse. 

Os irmãos de uma família numerosa parecem, muitas vezes, quase à prova de bala. Não se melindram com facilidade, não choram por tudo e por nada, não fazem tantas fitas. Porque foram aprendendo que nem sempre o mundo gira só à sua volta.

A casa de uma família numerosa não é só uma casa, é uma escola de turmas mistas, onde todos aprendem diariamente uns com os outros – não só os filhos, mas também os pais – não só com os mais velhos, mas também com os mais novos.

Onde se aprende sobre relações, sobre solidariedade, cooperação, tolerância, partilha, capacidade de improvisação e de adaptação, negociação, lealdade e a saber lidar com a frustração.

No fim, aquilo que falta de silêncio, paz, espaço e exclusividade, é sempre compensado pelo calor de uma vida partilhada. E talvez essa seja a maior herança deste tipo de famílias: a de crescer sempre bem acompanhado.