No fim-de-semana, enquanto almoçava fora, reparei numa mesa ocupada apenas por duas crianças. No lugar do prato, tinham um telemóvel para onde olhavam fixamente, totalmente absorvidas. A certa altura, apareceram os pais e pediram a uma delas que fosse lá fora tirar uma fotografia. Ela foi, a contragosto. O pai pediu-lhe que guardasse o telemóvel, mas ela resistiu. Até que o pai lhe tirou o telemóvel da mão, guardou-o no bolso, ela fez a pose que o pai pediu, tiraram a fotografia e imediatamente a seguir foi buscar o telemóvel ao bolso do pai, regressando de imediato, absorta, ao mesmo lugar. Aquela cena impressionou-me. Não pelo uso do telemóvel, mas pela intensidade da ligação que parecia existir entre ambos. Era como se aquele aparelho fosse o oxigénio de que necessitava para respirar e os poucos segundos da fotografia tivessem consumido toda a reserva disponível.
Assistimos, de forma demasiado paciente e permissiva, a uma mudança que pode ter consequências muito sérias no desenvolvimento dos mais novos. Por um lado, protegemo-los de tudo o que sabemos poder prejudicar o seu desenvolvimento. Mas por outro, permitimos que passem horas seguidas entregues a dispositivos que sabemos poderem ativar mecanismos de recompensa semelhantes aos envolvidos noutras formas de dependências.
Sobretudo nesta altura do ano, em que muitas crianças e jovens passam longos períodos em casa enquanto os pais estão a trabalhar, torna-se particularmente fácil que o ecrã ocupe o lugar do tempo livre, do brincar, da imaginação e até da relação com os outros.
Embora esta preocupação seja cada vez mais transversal, continua a existir dificuldade em agir. Talvez por ser uma realidade que se instalou, de forma rápida e silenciosa, quase sem nos darmos conta.
Na União Europeia, França foi dos primeiros países a avançar com medidas destinadas a limitar o acesso dos menores às redes sociais. No entanto, apesar de termos cada vez menos dúvidas sobre os efeitos negativos desta nova realidade, parece haver um adiamento de medidas necessárias não só no plano legislativo, mas também da educação familiar.
Notamos que as crianças parecem brincar menos e que a forma como se relacionam mudou. Temos vindo a observar maiores dificuldades no controlo emocional, menor capacidade de concentração e de imaginação, menos empatia e menor tolerância à frustração. E, também, mais dificuldade em esperar, em ler, interpretar, escrever um texto longo ou ver um filme até ao fim. Algumas crianças e jovens tornaram-se menos proativos, mais dependentes de estímulos constantes e menos disponíveis para o que exige tempo, esforço e investimento interno. É impossível negar que algo de preocupante está a acontecer. O que talvez seja mais difícil é reconhecermos que essa mudança também exige uma transformação na forma como educamos.
A tecnologia continuará a avançar. Não faz sentido demonizá-la, mas também não podemos abdicar da responsabilidade de lhe dar um lugar. Cabe-nos garantir que não seja ela a educar os nossos filhos. Porque educar implica presença, disponibilidade, limites e a coragem de suportar o desagrado momentâneo que tantas vezes acompanha um “não”. Se deixarmos que sejam as crianças e os jovens a definir sozinhos os seus próprios limites, arriscamo-nos a perdê-los cada vez mais, e será cada vez mais difícil recuperá-los.