Apesar de a maioria dos jovens manter uma relação muito próxima com o telemóvel, alguns começam a identificar um sentimento de saturação desta ligação constante.
Não só através do reconhecimento do peso do seu uso excessivo e da forma automática quase exclusiva com que o usam, como de sentirem que as redes sociais ou os jogos lhes roubam tempo de presença e de experiência real. A isto soma-se uma sensação crescente de invasão, através das notificações constantes, da exigência de disponibilidade permanente, da pressão de estar sempre online, atento e pronto a responder.
Alguns jovens descrevem um certo cansaço e uma dificuldade em desligar.
Ao mesmo tempo percebemos que, sobretudo para as raparigas, existe um impacto claro na autoestima, pautado pela comparação constante e por uma ansiedade que se instala inicialmente de forma sorrateira e que se vai tornando cada vez mais evidente.
É neste contexto que começam a surgir algumas tentativas de resistência. Há jovens que impõem a si mesmos períodos longe do telemóvel, que procuram atividades fora do espaço digital - desporto, encontros presenciais, ou até práticas que pareciam ter caído em desuso, como o crochet, o desenho ou a pintura. Como se, de forma intuitiva, procurassem recuperar um tempo mais lento e um contacto mais direto consigo próprios e com os outros.
Sentem que é normal pegar no telemóvel e terem mais de 1000 notificações. Recebem mensagens e áudios a qualquer hora, que exigem uma resposta quase imediata. Certa vez, uma jovem desabafava: ‘Até quando vão ao supermercado sentem necessidade de contar, e esperam que eu esteja sempre disponível para ouvir aqueles audios intermináveis e para responder a tudo’.
De facto, a dificuldade em não responder é real. As mensagens acumulam-se rapidamente, e a ausência de resposta muitas vezes é interpretada como desinteresse ou dificuldade relacional. A pressão para corresponder - com rapidez e presença - torna-se uma regra implícita. Como se a amizade se medisse mais por likes, comentários e respostas imediatas do que pela qualidade do encontro.
Vive-se numa dependência significativa de validação externa, muitas vezes pouco consciente, que compromete a liberdade individual. Num tempo de hiperconexão, cresce a sensação de invasão do tempo e do espaço pessoal.
Alguns jovens mais sensíveis a estas mudanças começam a ponderar e a experimentar pequenas ruturas, como regressar a telemóveis mais simples, sem redes sociais, numa tentativa de recuperar o controlo.
No entanto, essa escolha não é simples. A dependência já é quase estrutural e abrange não só o plano social, como o académico, tornando o desafio ainda mais profundo e difícil. Se por um lado sentem dificuldade em estar verdadeiramente sós, e não apenas afastados dos outros, em sustentar uma identidade que não dependa permanentemente do olhar e da aprovação alheia, por outro não querem ficar alienados das várias esferas que aquele aparelho passou a reunir, nomeadamente a académica.
No fundo, vivemos num tempo em que quase ninguém está efetivamente só, mas em que também parece cada vez mais difícil estar verdadeiramente acompanhado.