Há uma expectativa curiosa em relação às férias: a de que, de um dia para o outro, temos a obrigação de ficar mais felizes. Agosto é, por excelência, o mês da praia, do sol, do mar, da piscina, do descanso e de tudo aquilo que associamos ao lazer. Como se bastasse arrancar uma página do calendário para deixar para trás o cansaço, a ansiedade e as preocupações acumuladas ao longo do ano.
Depois de dez meses de aulas, para muitos jovens, o simples facto de terminarem os horários exigentes, as responsabilidades da escola, as avaliações, os trabalhos para casa e toda a pressão que acompanha esse processo já representa um enorme alívio. O que só por si poderia significar umas férias abençoadas.
Mas, por vezes, a expectativa em torno deste período é tão elevada que acaba por se tornar uma nova dor de cabeça.
As redes sociais ajudam a alimentar essa angústia. Basta abrir uma dessas aplicações para encontrar as férias perfeitas dos outros: as praias paradisíacas, as festas inesquecíveis, os cocktails refrescantes, os destinos de sonho, os bronzeados invejáveis, as amizades sem conflitos e os sorrisos permanentes. É fácil esquecer que uma fotografia ou um vídeo de poucos segundos nunca contam a história inteira.
Quando o descanso também se transforma numa meta de desempenho, até ele pode gerar ansiedade. Para alguns jovens, as férias deixam de ser um tempo de recuperação e descanso para se tornarem num novo palco de comparação, onde os sentimentos de exclusão ou inferioridade persistem. Como se houvesse uma obrigação de aproveitar cada momento, criar memórias inesquecíveis e mostrar uma vida social imparável.
As férias não têm de ser sempre felizes nem intensas. Também podem significar dias tranquilos, momentos de silêncio, tempo para estar sozinho, para descansar ou, simplesmente, não fazer nada. E nada disso representa um fracasso.
As férias também têm direito a ter dias cinzentos, mesmo quando o sol brilha e o termómetro marca 40 graus.
Nem sempre os jovens querem praia e festa. Por vezes também precisam de calma, de sossego ou de espaço para recuperar. De fazer coisas diferentes, de que nem todos gostam ou de ir a sítios que estão fora da moda.
Da mesma forma, nem sempre as férias em família correspondem ao postal que imaginámos. O reencontro durante 24 horas por dia raramente é pacifico, os gostos e desejos nem sempre condizem, a quebra da rotina pode tornar os mais pequenos birrentos ou irrequietos. E a fotografia idealizada nem sempre corresponde à realidade.
É difícil o verão suspender a vida. É apenas a continuação de todos os outros meses, agora com mais horas de luz e menos obrigações. Continuamos a sentir alegria, entusiasmo, mas também irritação, tristeza, cansaço ou solidão. E isso não significa que as férias estejam a correr mal.