segunda-feira, 09 fev. 2026

Do que precisam as crianças depois da escola?

Com a preocupação de ‘capacitar’ e fornecer ‘ferramentas’, esquecemo-nos do essencial: a criança precisa de ser criança.

No 1.º ciclo, depois de um dia de escola de seis horas e meia, a maioria dos estabelecimentos públicos oferece um leque de atrativas Atividades de Enriquecimento Curricular (AECs), que incluem atividades artísticas, desportivas ou musicais. Dependendo das freguesias, o programa pode incluir uma tarde de brincadeira livre. Embora geralmente seja a mais ansiada pelas crianças, é também a menos valorizada por muitos pais, cada vez mais preocupados em ‘capacitar’ os filhos e em dotá-los de ‘competências’ para o futuro – palavras muito em voga nos dias que correm.

A certa altura, com a saída de um dos monitores das AECs numa escola, discutia-se quais as atividades que poderiam substituir essa tarde e as ideias começaram a surgir: «Podiam ter inglês. É importantíssimo para tudo», sugeriu alguém. «A língua gestual também seria uma mais-valia». Uma amiga que assistiu à conversa disse-me que ficou atónita – não por desmerecer as atividades, mas porque quase ninguém questionou se as crianças ainda precisariam de mais uma aprendizagem estruturada ao final do dia, quando o corpo pede para se libertar, para correr e saltar, quando faz falta soltar o riso, falar e brincar livremente.

Parece existir uma necessidade de preencher os tempos livres com atividades dirigidas, que desenvolvam isto e aquilo, como uma dificuldade em tolerar o tempo imprevisível, assumindo-o como uma oportunidade desperdiçada de aprendizagens ‘a sério’. Mas é precisamente nesse intervalo em que a criança pode brincar, que o recreio oferece um espaço aberto e amplo de construção psíquica.

A criança brinca para se relacionar, para criar, para cair e levantar-se, para descobrir e experimentar, para se conhecer e aos outros, para testar limites, para aprender a lidar com a frustração, para dar asas à imaginação, à curiosidade, à fantasia, à superação. Para transformar a realidade com a imaginação.

Quando o espaço de brincar livremente se reduz e as implicações dessa falta se fazem sentir, surgem uma série de ‘pensos rápidos’ tanto mais valorizados e sustentados quanto o número de chavões que utilizam: «programas de promoção de competências socioemocionais, prevenção da ansiedade, workshops de mindfulness, estratégias e ferramentas promotoras de inteligência e regulação emocional, resiliência e relacionamento interpessoal». Ou seja, tentamos reparar, de forma técnica, aquilo que era natural e que foi sendo retirado de forma gradual e silenciosa: o tempo, a relação, o corpo em movimento e aquilo que as crianças mais gostam de fazer e que nem sempre é valorizado: brincar.

Reconhecemos cada vez mais a importância da vida emocional das crianças e preocupamo-nos com o sofrimento e os níveis de ansiedade que surgem cada vez mais cedo. Ainda assim, precisamente por termos a melhor das intenções, corremos o risco de agir a partir das nossas próprias angústias e preocupações, tendo dificuldade em colocarmo-nos verdadeiramente no lugar delas. De compreender do que precisam no presente, porque estamos excessivamente focados com o que acreditamos ser melhor para o seu futuro. Não se trata de rejeitar as atividades estruturadas nem de negar o seu valor, mas de reconhecer que, com a preocupação de ‘capacitar’, ‘empoderar’ e fornecer ‘ferramentas’, esquecemo-nos de algo essencial: a criança precisa de ser criança, precisa de tempo, de relação e de liberdade para brincar. Porque é nesse espaço, simples e profundamente humano, que não só a criança, mas também o futuro adulto, se constroem.