sexta-feira, 10 jul. 2026

Diz-me o que tens, dir-te-ei quem és 

Quando a imagem ocupa demasiado espaço, deixa menos lugar para outras formas de nos apresentarmos ao mundo. 

Há várias gerações que existe entre os jovens uma preocupação – que se traduz em comentários, olhares e escolhas – com o que cada um veste e tem, como se o invólucro dissesse mais do que o produto.

O facto de alguém não vestir marcas da moda ou de valores com três dígitos pode ser razão para ser olhado de lado ou excluído. O dinheiro, e a falta dele, sempre assumiram um papel muito importante na forma como avaliamos os outros, sobretudo numa idade em que o olhar exterior e a necessidade de pertença têm um peso decisivo na forma como nos vemos e situamos no mundo. Embora esta dinâmica se estenda, para alguns, pela vida fora.

Infelizmente, notamos que esta tendência parece cada vez mais presente. As redes sociais transbordam futilidade e superficialidade. São uma montra viva do que cada um tem e do que quer exibir, enchendo os olhos – e por vezes a inveja – de quem assiste.

Os jovens passam cada vez mais tempo presos neste circuito fechado, sendo muitas vezes espectadores passivos da ostentação dos outros, numa espécie de passarela de roupas, acessórios, maquilhagens, carros, casas e tudo o que se puder comprar, contribuindo para uma competição para ver quem tem mais. Quem não tem, pode sentir-se diminuído, e por vezes humilhado e até discriminado.

Mas talvez a questão mais pertinente não esteja em quem tem ou deixa de ter. Aquilo que merece atenção é a importância que se atribui ao que é visível. Quando a imagem ocupa demasiado espaço, corre-se o risco de deixar menos lugar para outras formas de nos apresentarmos ao mundo.

Muitas vezes fica a sensação de que sobra pouco espaço para aquilo que não se vê, que precisa de ser vivido devagar e ouvido numa escuta atenta e demorada ou descoberto numa convivência autêntica e prolongada. O tempo é demasiado ocupado a acompanhar o que os outros fazem, têm ou exibem, e a vida interior corre o risco de passar para segundo plano. Não por falta de riqueza ou profundidade, mas porque o olhar está frequentemente voltado para fora.

Corre-se o risco de acumular mais imagens do que histórias, mais exposição do que aprendizagens, experiências transformadoras ou aventuras para contar. As vivências tendem a tornar-se mais semelhantes, porque todos assistem aos mesmos vídeos, aos mesmos memes, jogam os mesmos jogos e seguem as mesmas tendências. Comprometendo, desse modo, a construção de um mundo individual distinto, mais rico e original de ‘experiências feito’: de relação, de aventura, de aprendizagens próprias e singulares, de valores, de procura, obstinação, determinação e dinamismo.

Muitos têm dificuldade em soltar-se, em reconhecer-se e mostrar-se na pessoa que são. Chegam a ter uma aparência rígida e cuidadosamente construída, parecendo representar uma personagem que esconde o receio de poder não corresponder, de não ser suficientemente admirado, aceite ou reconhecido.

Num tempo em que parecemos estar todos numa montra e em que é tão fácil mostrar o que se tem, vale a pena não perder de vista aquilo que se é. Porque as marcas, os objetos e a aparência podem ser mais fáceis de construir e de atrair o olhar, mas serão sempre as histórias, os afetos, os valores e os vínculos que construímos que sustentam verdadeiramente a identidade e as relações mais duradouras.