Depois da escola, as explicações

O tempo que se espera que as crianças dediquem à escola estende-se cada vez mais para lá do toque de saída. Entre trabalhos para casa, apoios escolares, centros de estudo e explicações, muitos alunos vivem numa espécie de prolongamento infinito do tempo letivo.

Uma amiga contava-me há poucos dias que o filho, que está no 5.º ano, depois de ter 45% num teste de matemática, foi aconselhado a frequentar as aulas de apoio da disciplina após o horário letivo. As aulas são dadas pelo mesmo professor, com quem a turma não simpatiza particularmente, o que torna este tempo extra ainda mais penoso e com sabor a castigo. É um tempo roubado ao descanso, ao brincar e ao tempo livre. No entanto, quem não vai é chamado à atenção, ficando com a sensação de estar a falhar ou de não se esforçar o suficiente. E isso pode fazer-se sentir na nota.

O tempo que se espera que as crianças dediquem à escola estende-se cada vez mais para lá do toque de saída. Entre trabalhos para casa, apoios escolares, centros de estudo e explicações, muitos alunos vivem numa espécie de prolongamento infinito do tempo letivo.

As explicações privadas, que já foram uma exceção reservada a casos pontuais, tornaram-se parte integrante do percurso escolar de muitos estudantes. Os centros de estudo multiplicam-se, os explicadores não têm mãos a medir mesmo à noite e fins-de-semana.

Cada vez mais estudantes sentem que não sabem o suficiente, que não conseguem aprender sem ajuda ou que não suficientemente bons. E quando uma criança cresce com este tipo de sentimentos, deixamos de estar só perante uma questão académica, mas também perante uma preocupação emocional e de identidade.

Estudos recentes revelam que 20% dos alunos frequentam explicações privadas em Portugal e que esta percentagem aumenta significativamente no secundário.

A normalização desta realidade evita questões difíceis: por que razão tantas crianças necessitam de ajuda fora da escola para a conseguir acompanhar? O que falhou entre os programas, o funcionamento das aulas, as condições dadas aos professores e as necessidades reais dos alunos?

Um explicador consegue muitas vezes aquilo que a escola dificilmente permite: tempo, disponibilidade, conhecer cada aluno individualmente, adaptar-se ao seu ritmo, ao seu modo de aprendizagem e, sobretudo, a criação de uma relação de confiança. Aprender exige vínculo, segurança e espaço para errar. E essas necessidades ficam muito comprometidas em salas cheias, com programas extensos, uma pressão avaliativa constante e professores assoberbados, onde os alunos parecem peças de uma linha de montagem.

Paralelamente, assumir que a escola não chega significa aceitar que quem não tem possibilidade de manter explicações privadas fica necessariamente em desvantagem.

Esta exigência transmite também a ideia de que o tempo de descanso, de brincadeira ou simplesmente para não fazer nada significa culpa ou desperdício.

Um dia destes fui ao final da tarde a uma consulta com um dos meus filhos e ele dizia-me, preocupado, que tinha vários trabalhos de casa para fazer e que não queria ter ‘falta de trabalho’ no dia seguinte. Na altura ainda pensei que deveria pedir um comprovativo de presença para justificar a impossibilidade de fazer os trabalhos. Mas, rapidamente, apercebi-me do absurdo da situação. Como se até o período de descanso precisasse de justificação.