quinta-feira, 05 mar. 2026

Bullying subtil: nódoas negras invisíveis

O bullying subtil não sangra, não se vê, não se ouve, mas causa feridas reais e duradouras.

Quando uma criança chega a casa com uma nódoa negra feia ou uma ferida séria, os pais reagem prontamente: contactam a escola, falam com os professores, com outros encarregados de educação e são tomadas medidas imediatas. Se acontecer na escola o processo é idêntico. Mas e quando as marcas não se veem por fora? Quando escurecem e doem por dentro, quando o choro é silencioso e vão crescendo sem que ninguém se aperceba?

Há crianças que, mesmo dentro do seu grupo de amigos, são constantemente desvalorizadas, ridicularizadas, humilhadas ou ignoradas. Tanto na escola, como em casa, através das redes sociais. Podem ser um ou vários elementos do grupo, geralmente sempre os mesmos, que vão fazendo comentários desagradáveis e depreciativos, riem quando o colega fala, não o convidam para encontros e atividades, criam grupos onde não o incluem, partilham mensagens ou imagens depreciativas, ou praticam ghosting individual ou coletivo.

No início, a criança visada estranha e reage, mas muitas vezes evita confrontar os colegas com receio de perder a “amizade”. Quando o faz dão-lhe a entender que está a exagerar. Com o tempo, começa a duvidar de si própria e do que sente, conforma-se e acaba por aceitar o comportamento dos colegas, sentindo-se cada vez mais desvalorizada e inferior aos outros – menos bonita, menos inteligente, menos engraçada. Ou com roupas feias, maquilhagens mal feitas, com mau gosto, etc.

Este é um tipo de bullying insidioso, desenvolve-se de forma sorrateira, silenciosa e traiçoeira, que confunde agressão com amizade. Muitas vezes, os agressores comportam-se de forma diferente quando estão a sós com a vítima, confundindo ainda mais os seus sentimentos. E os adultos, mesmo estando próximos e atentos, podem não se aperceber de nada.

Por dentro a agressão vai corroendo e as consequências são profundas: pode gerar tristeza, sintomas depressivos, afetar a identidade e a autoestima, pode criar ansiedade social, receio de ir à escola, isolamento, dores físicas ou queda do rendimento escolar.

No mundo digital, a agressão estende-se e expande-se. Invade as casas, os quartos, o espaço íntimo, que deixa de ser um lugar seguro. E a humilhação torna-se pública e constante. Em vez de desaparecer com o toque da escola, permanece e o número de visualizações ou de respostas aumenta o sentimento de rejeição. 

É fundamental que os pais e educadores estejam atentos aos sinais, às alterações de comportamento, que valorizem as emoções das crianças e intervenham de forma adequada. Mais importante do que punir comportamentos isolados na escola e em casa, é transmitir o que é a amizade, o respeito e a empatia, criando ambientes de aproximação e de troca, seguros e acolhedores. Perguntar à criança como se sente com os colegas ou nas redes sociais pode ser mais revelador do que perguntas gerais ou focadas na agressão.

O bullying subtil não sangra, não se vê, não se ouve, mas causa feridas reais, graves e duradouras. Reconhecer, nomear e enfrentar estas agressões é essencial para proteger a saúde emocional das crianças e ajudá-las a desenvolver a sua autoestima, autoconfiança e relações saudáveis.

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