terça-feira, 08 set. 2026

'Até já!'

A família continua a ser, para muitos de nós, a pedra basilar sobre a qual nos construímos. O primeiro lugar onde nos conhecemos, através do olhar dos outros, onde aprendemos a relacionar-nos, a viver afetos e a identificar limites, responsabilidades e diferenças.

Há dois anos, no aniversário de um tio nosso que fazia 80 anos, no momento em que apagava as velas, o tio dele, com 99 anos, atirou: «Ainda és um miúdo, António!» Aos olhos de quem nos viu crescer seremos sempre miúdos.

Todos os anos, esta família vem de vários pontos do país e do estrangeiro, para comemorar o aniversário deste pai, marido, avô, tio, sobrinho, sogro, primo ou irmão. É sempre um dia especial em que três ou quatro gerações se reencontram para celebrar a vida, a proximidade, a união e o amor que as liga, mesmo à distância. Conversam, cantam, dançam, brincam, refletem, almoçam, lancham e, ao final do dia, despedem-se sempre com um ‘até já’ ou ‘até logo’. Recusam-se a dizer adeus, mesmo que só voltem a encontrar-se no aniversário seguinte.

Todas as famílias têm os seus rituais, as suas formas de estar e as suas regras. Há tradições que passam de geração em geração, expressões próprias de cada família e histórias contadas vezes sem conta que, ainda assim, nunca dispensam uma boa gargalhada. São referências que nos ajudam a orientar-nos no mundo e a perceber quem somos e de onde vimos. Não têm de ser seguidas para sempre, nem devem impedir-nos de construir o nosso próprio caminho, mas guiam, contêm e conferem-nos uma identidade e sentimento de pertença.

Infelizmente, nem todas as famílias conseguem constituir um lugar seguro. Há famílias marcadas pela ausência, pelo conflito, inseguranças ou pela dificuldade em aceitar que os filhos quando crescem seguem o seu próprio caminho. Há também quem tenha de procurar fora da família de origem as relações que lhe permitem sentir-se verdadeiramente acolhido. No entanto, todos precisamos, de uma forma ou de outra, de vínculos que nos deem raízes e um sentimento de continuidade.

A família continua a ser, para muitos de nós, a pedra basilar sobre a qual nos construímos. O primeiro lugar onde nos conhecemos, através do olhar dos outros, onde aprendemos a relacionar-nos, a viver afetos e a identificar limites, responsabilidades e diferenças. Onde recebemos modelos que nos irão acompanhar e que podemos repetir, transformar ou rejeitar.

Precisamos de uma boa família e de criar raízes e vínculos fortes e profundos, para que mais tarde nos possamos separar dela. Porque não nos tornamos verdadeiramente autónomos quando deixamos de precisar dos outros, mas quando sentimos que podemos afastar-nos sem perder o vínculo. Quando percebemos que crescer não significa deixar de pertencer.

Separar não significa cortar, deixar de amar, esquecer ou abandonar. Significa poder seguir o nosso caminho, fazer escolhas, construir uma vida, sabendo que existe dentro de nós um lugar de pertença que nos acompanhará para sempre. Talvez essa seja uma das maiores riquezas da família: ser não só a base a partir da qual nos formamos, mas também aquela de onde partimos e à qual podemos sempre regressar.

Podemos ir para longe, criar relações novas e descobrir lugares distantes, sem perdermos as nossas raízes e o lugar a que pertencemos. Porque a distância pode separar, mas não desfaz os vínculos que nos unem. Daí nunca ser um ‘adeus’, mas sempre um ‘até já’.