quinta-feira, 11 jun. 2026

As novas amizades

Muitos jovens referem que as amizades se tornaram mais superficiais e os encontros mais esporádicos

Quando uma estudante me disse que o baile de finalistas tinha sido cancelado na faculdade por falta de inscrições, fiquei preocupada. Esta tradição de passagem, secular e carregada de simbolismo – o baile formal, com roupas de cerimónia, a celebração partilhada, num local novo – não servia só para celebrar, mas, simbolicamente, para marcar em conjunto o fim de um ciclo. Esta ausência de comemoração parece revelar algo mais profundo sobre a forma como os jovens se relacionam.

Em gerações anteriores a presença física era quase obrigatória: precisávamos uns dos outros para brincar, aprender, partilhar histórias e emoções. Hoje, embora a necessidade de companhia seja tão grande ou maior, a vivência dessa companhia mudou. A chegada dos smartphones, tablets, jogos online e redes sociais transformou profundamente a forma como nos aproximamos dos outros.

Desde a primeira infância, muitas crianças, habituadas aos dispositivos dos pais e a um consumo rápido e contínuo de conteúdos digitais, deixaram de saber brincar da forma que conhecíamos. Criar, imaginar, esperar, construir, entediar-se – capacidades essenciais ao desenvolvimento relacional – tornaram-se menos espontâneas.

Mais tarde, com a entrada na escola, o universo das crianças e adolescentes passou a ser mediado por redes sociais e jogos online, que se vão instalando de forma cada vez mais evidente. Fora da escola, sem as ‘muletas digitais’ o contacto por vezes é sentido como estranho, pobre ou insuficiente, pelo que muitos jovens se refugiam em casa ou tendem a preferir atividades mais dirigidas ou mediadas por ecrãs.

Inevitavelmente, o isolamento vivido durante a pandemia veio acelerar esta tendência. Quando as crianças e adolescentes regressaram à escola, traziam consigo vazios emocionais, menor tolerância, maior reatividade e uma maior dificuldade na aproximação aos outros. Aos poucos foram-se reencontrando, mas as relações modificaram-se.

Muitos jovens referem, com frequência, que as amizades se tornaram mais superficiais, os encontros mais esporádicos e que sentem uma certa inconsistência e ambiguidade nas relações digitais que, embora constantes, muitas vezes são sentidas como vazias ou traiçoeiras, permitindo dizer coisas que dificilmente seriam ditas cara a cara.

Se até certa idade as crianças se aproximam umas das outras com maior naturalidade para brincar e para se relacionarem, à medida que crescem passam a estar mais condicionadas por regras sociais, expectativas e inseguranças. Com a chegada do digital, este desafio da aproximação aos outros acaba muitas vezes por ser evitado ou aligeirado pelo recurso ao mundo digital, boicotando, em muitos casos, uma forma de relacionamento mais próximo e genuíno.

Talvez não se trate apenas de uma perda, mas de uma transformação. O modelo de relacionamento que conhecíamos dificilmente regressará. O desafio que se coloca é o de aprender a construir um lugar no outro, mesmo num mundo mediado pela tecnologia, sem perder a profundidade dos vínculos. A verdadeira relação faz-se não só pela presença, mas também pela atenção, pelo cuidado e pela partilha, dimensões que podemos cultivar se olharmos para a tecnologia como uma ferramenta e não como um substituto, reinventando as amizades sem perder o foco do que é realmente importante.