O que devo fazer para gostarem de mim?”, “Posso morrer se for à piscina depois de comer?”. Perguntas como estas são dirigidas, diariamente, à inteligência artificial.
Quase sem nos darmos conta, esta ferramenta tem vindo a ocupar um lugar que pertencia aos pais, aos familiares, aos amigos e também ao desconhecido, à curiosidade, à dúvida e às descobertas que se faziam aos poucos. Às incertezas que só se confessavam a um diário bem escondido, aos receios com que crescíamos em silêncio, às perguntas que permaneciam em aberto durante longos anos e que se iam desvendando lentamente, com o passar do tempo.
A IA pode dar a ilusão de ter resposta para tudo. Organiza ideias, esclarece dúvidas e apresenta soluções no imediato. Desvenda em segundos mistérios que para nós pareciam eternos. Mas fá-lo, geralmente, sem se preocupar com a idade, a sensibilidade ou a maturidade de quem pergunta. Responde de forma automática, e direta, independentemente de quem está do outro lado. Expõe a realidade com todos os seus contornos, mais ou menos sombrios, reduzindo o espaço para o não saber, para a construção gradual de sentido e para o trabalho interno que se faz com o tempo.
Alguns adultos podem sentir-se aliviados por serem poupados a questões mais incómodas, que são respondidas sem constrangimentos ou embaraço. Mas isso, além de poder torná-los cada vez mais dispensáveis, também antecipa respostas de forma automática e sem filtro, para as quais nem sempre existe o enquadramento emocional necessário. A IA diz o que devia e o que não devia dizer, sem sentimentos, sem rodeios, sem deixar espaço à imaginação ou a perceção do que já pode ser integrado no momento.
Não podemos estranhar ou criticar que os jovens recorram constantemente à IA. É quase irresistível. Ao contrário dos pais ou dos amigos, está sempre disponível e recetiva. Além de que não critica, não julga, não faz ilações, não é impertinente, nem invasiva e responde geralmente o que querem ouvir. E, também por isso, tornou-se automática para quem está a descobrir o mundo e tem tantas questões para colocar.
Aquilo que cativa a impaciência dos adolescentes, ou seja, a resposta certa e imediata, é precisamente o que tem de mais perigoso e que, quando usado de forma acrítica, pode criar dependência, insegurança, ansiedade, dificuldade em lidar com a frustração e empobrecer o pensamento, desvalorizando processos mais demorados e fundamentais, como o raciocínio, a experiência, a dúvida, o erro ou a reconstrução.
Além de que pode alimentar uma falsa companhia, uma ilusão de amparo e empatia, uma presença constante que responde, mas que não cria relação. E, para quem já tem fragilidades ao nível da socialização, pode tornar-se tão arriscado quanto apetecível.
Já nada será como antes. E isso pode não ser mau. Mas é importante que possamos resistir ao facilitismo e continuar a valorizar o encontro com o outro, tão essencial como imprevisível, e com nós próprios. A preservar esse lugar interno onde as perguntas não têm respostas certas nem imediatas, onde nem tudo é óbvio e concreto, onde existe simbolização e, a pouco e pouco, se vai construindo um sentido.
Porque é nesse espaço, imperfeito, inacabado e em constante mudança, entre as esperas por repostas mais ou menos esclarecedoras, que crescemos, nos descobrimos e aperfeiçoamos.