As férias estão a chegar e os pais que ainda não inscreveram os filhos em atividades começam a levar as mãos à cabeça. Quem fica com os filhos? Como conciliar os horários de trabalho com as intermináveis férias das crianças?
Os mais pequenos, que não podem ficar em casa sozinhos, passam de campos de férias para atividades de tempos livres, workshops e programas de verão, que prometem estimular um pouco de tudo.
Os mais crescidos, que já não alinham nestas propostas, ficam muitas vezes em casa sozinhos, entregues aos ecrãs.
Não desvalorizo nenhuma destas respostas que representam a salvação de muitas famílias durante estes meses de interregno e que se esforçam verdadeiramente por criar momentos de bem-estar e diversão para os mais novos. Mas pergunto-me que espaço ainda existe para aquele tempo de tédio e aborrecimento que tornava as nossas férias de infância tão longas e, ao mesmo tempo, tão memoráveis.
Talvez o tédio não seja um problema a resolver, mas uma experiência necessária.
É nesse espaço aparentemente vazio, onde não há programa, objetivo ou estímulo constante, onde o tempo é lento e aborrecido, que nasce o esforço e a imaginação. O vazio leva ao desconforto e à ação. Faz surgir a necessidade de criar, de inventar jogos, brincadeiras novas, criar histórias, construir cabanas, escrever, desenhar, explorar ou simplesmente pensar.
E é neste lugar e neste papel, em que se pode ser criador em vez de participante ou espectador, que se desenvolvem competências de que tanto falamos hoje, como a criatividade, a autonomia, a capacidade de autorregulação emocional e, sobretudo, a possibilidade de se descobrir e poder aprender consigo próprio sem depender constantemente de um estímulo exterior.
Talvez o desconforto com o tédio seja, muitas vezes, mais dos adultos do que das crianças. Vivemos numa época em que qualquer vazio precisa de ser preenchido. Se uma criança parece aborrecida, sentimos que temos de encontrar uma solução imediata, como passar-lhe um telemóvel para as mãos. Como se o aborrecimento fosse um sinal de falha da nossa parte, quando pode ser precisamente o início de algo novo.
No desejo de oferecer aos filhos as melhores experiências, acabamos por organizar-lhes o tempo livre quase por completo. Queremos que aprendam, que experimentem, que se divirtam, que convivam. E tudo isso é muito importante. Mas, sem nos apercebermos, podemos estar a limitar uma das experiências mais ricas da infância: a possibilidade de poder criar a partir do nada. Não nos apercebendo de que muitas das aprendizagens mais valiosas surgem de dentro para fora e não no sentido inverso.
As brincadeiras mais marcantes muitas vezes não nasceram de programas organizados, mas da necessidade de inventar, de negociar regras, de transformar um sofá num castelo, uma manta numa tenda ou uma simples caixa de cartão num foguetão capaz de voar até à lua. É nesse espaço de liberdade que as crianças descobrem interesses, capacidades, limitações e formas muito próprias de estar com os outros e consigo mesmas.
Talvez não precisemos de entreter tanto as crianças. Talvez precisemos de confiar mais nelas e no que acontece quando o tempo é verdadeiramente livre e aparentemente não há nada para fazer.