Um dia destes, ouvi um senhor de aspeto muito humilde aconselhar uma criança, enquanto ajudava a arrumar carros: - Tens de estudar muito, para seres arquiteto e fazeres desenhos de casas. Percebes? Depois podes fazer muitas casas que vão construir aqui com os teus desenhos e em muitos sítios. Já imaginaste?
Parecia que o sonho crescia dentro dele enquanto falava e, uma vez que já não tinha possibilidade de o realizar, oferecia-o a outro, na esperança de que ele o pudesse agarrar.
Mais do que um sonho de uma carreira construída e demorada, muitos jovens hoje projetam uma vida estável e de sucesso, onde o dinheiro vem, muitas vezes, em primeiro lugar.
Alguns podem confundir este desejo com uma espécie de ganância juvenil. Mas na verdade, o contexto onde os jovens de hoje crescem pode ser propício à formação deste objetivo.
Por um lado, através da internet, estão em constante contacto não só com estilos de vida de luxo e ostentação, como com formas fáceis e rápidas de ganhar dinheiro, impensáveis ainda há poucos anos.
Por outro lado, sonhos como o do senhor que arruma carros implicam confiança. E o sonho do ‘ter’, em vez de ‘ser’, pode parecer menos arriscado. Sobretudo quando a segurança é escassa.
E, nestes casos, embora muitos pais usem frequentemente conselhos como: “o que importa é fazeres o que gostas”, “tens de seguir os teus sonhos”, “faz aquilo que te apaixona”, deixam inevitavelmente escapar nas entrelinhas as suas próprias inseguranças e receios de que os sonhos possam realmente alimentar famílias, de que a vida não é fácil, de que os tempos são incertos e, ao mesmo tempo, o desejo inevitável do sucesso dos filhos. Ao mesmo tempo, não precisam de dizer nada para serem a prova dos nove de que anos de estudo e empenho nem sempre conduzem a empregos de sonho, que muitas vezes a vida não é justa, que mesmo quando se trabalha muito, pode ganhar-se pouco e ter pouco tempo para fazer aquilo de que mais se gosta, como estar com os filhos. E, mais do que com conselhos ou explicações, é esta a realidade com que muitos jovens se deparam diariamente: pais cansados, desmotivados, insatisfeitos e pouco reconhecidos, com pouco tempo para eles e para os outros, a quem a vida não sorri como idealizaram quando se dedicaram e perseguiram os seus sonhos.
O dinheiro surge então como uma solução tranquilizadora face à angústia do que poderá vir a ser a vida adulta. Como uma promessa de autonomia, independência, estabilidade e conforto. Como uma espécie de segurança psíquica, como uma forma de controlo e de sobrevivência. Como uma porta de acesso ao que ainda está bloqueado e que fantasiam para o futuro. E também como uma forma de reconhecimento, sobretudo quando se sentem constantemente colocados à prova e avaliados através de métricas de valor, como notas de 0 a 20, likes, seguidores ou salários.
Do diálogo entre o senhor que arruma carros, a quem a vida passou ao lado do sonho, e a criança com todos os sonhos em aberto, resta saber como a podemos fazer acreditar que a vida é feita menos daquilo que se acumula e mais do que se constrói, dos laços, da coragem e da confiança de manter vivo o desejo do que queremos realmente ser.