terça-feira, 21 jul. 2026

A criança que ainda vive em nós

Às vezes faz-nos falta uma certa leveza e descontração, uma indiferença saudável perante o olhar e julgamento do outro e de nós próprios, que nos permita mover e reagir de forma mais autêntica.

O Dia da Criança é um dia especial, em que sentimos a infância tão próxima que, por momentos, também nos lembramos da criança que fomos e do que dela permanece em nós.

A criança vive e experimenta o mundo antes de o conseguir entender ou explicar, antes de saber o que está certo ou errado. Transmite as sensações, que vivem à flor da pele, sem filtros. Expressa-se perante o que vê e sente sem segundas intenções, sem barreiras entre ela e o mundo que habita.

É um ser fantástico, que nos toca de uma forma única e que tem uma presença muito especial. Com uma leveza que dificilmente encontramos nos adultos, uma espontaneidade verdadeira, uma ingenuidade de quem ainda não conhece o mundo por inteiro, com as suas fintas e matreirices.

E é por isso que é irrequieta.

As crianças vivem intensamente e estão despertas para tudo o que as rodeia. Empolgam-se com facilidade e o corpo acompanha essa alegria: correm, saltam, rodopiam, como se dançassem. Do mesmo modo, quando se entristecem, choram como se o mundo fosse desabar. E, naquele instante, não o conseguem sentir de outra forma. Para elas, a vida e o mundo existem no momento presente.

Acontece o mesmo quando estão zangadas. Tanto pode ser tudo maravilhoso como terrível. As emoções não são suavizadas. Por que haveriam de ser? São autênticas, fortes e vividas em estado puro. A criança expressa o que sente. Se está zangada, grita, esperneia e deixa-se levar por essa dança, por vezes mais intensa, outras mais lenta. Há também momentos em que os sentimentos surgem todos baralhados: a alegria, a tristeza, a incerteza, a frustração e o cansaço confundem-se num ser ainda em desenvolvimento e maturação.

Talvez por isso nem sempre são compreendidas. Às vezes parecem excessivas, desajustadas, difíceis de conter.

Serão elas que exageram ou nós que já não nos reconhecemos nessa honestidade? Que já não conseguimos compreendê-las?

Com o tempo, vamos criando barreiras com os outros e até dentro de nós próprios. Os sentimentos ficam mais difusos, mais contidos, menos imediatos. O corpo perde leveza e ganha contenção. Aprendemos a moderar e a filtrar o que sentimos antes de nos expressar.

Será esse movimento um sinal de maturidade ou também uma forma de perda?

Às vezes faz-nos falta uma certa leveza e descontração, uma indiferença saudável perante o olhar e julgamento do outro e de nós próprios, que nos permita mover e reagir de forma mais autêntica. Que nos permita continuar a espantar-nos com a vida, como se tudo ainda estivesse por descobrir.

Todos mantemos essa criança em nós, por trás das capas que, sem nos apercebemos, fomos vestindo ao longo do tempo. Nem sempre a encontramos com facilidade. Mas ela permanece, mais ou menos escondida, a lembrar-nos de uma forma de estar no mundo mais inteira, intensa e sincera, menos defendida e, talvez, mais verdadeira.