A Europa é, desde os Tratados de Roma de 1957, uma construção que se confronta diariamente com nacionalismos milenares, pelo que, em rigor, mantém-se antes de tudo como conceito geográfico. Mas, se tivermos por base os eixos Oslo-Roma e Dublin-Varsóvia, globalmente, as respetivas elites políticas consideram que, depois do capitalismo selvagem do século XIX e do regulado na primeira metade do século XX, o pós-guerra abriu uma era de capitalismo iluminado, em que se alcançou o píncaro civilizacional, garantindo-se à plebe amplos direitos, com a economia ao serviço do Estado social, a plena liberdade de expressão, o respeito pela diferença e bens materiais e culturais para a generalidade da população.
Encaminhados, assim, os europeus para a bem-aventurança e reconhecida a sua vanguarda internacional na gestão da coisa pública , só haverá motivos, nesta ponta do continente eurosiático, para satisfação. Infelizmente, nem os europeus estão satisfeitos, nem americanos, africanos e asiáticos gostam do modelo europeu e muito menos o adotam.
E a rejeição é de tal monta que os norte-americanos alertam para o fim civilizacional da Europa, os africanos nunca esqueceram o passado colonial e desconfiam dos europeus e os asiáticos, embalados no seu imparável desenvolvimento económico, desprezam e ignoram o modelo político europeu e os respetivos princípios éticos e valores sociais, que consideram ineficazes e desajustados no tempo.
Também, internamente, vive-se uma verdadeira guerra civil ideológica. Os europeus detestam-se uns aos outros, arregimentados nas trincheiras da direita e da esquerda, do conservadorismo e do progressismo, dos valores tradicionais e do wokismo, sem qualquer respeito e tolerância entre uns e outros. As derivas autoritárias de Putin e Trump poderiam ter sido a força motriz para unir o continente e dar-lhe uma orientação. Debalde, a liberdade de expressão, concebida como avanço civilizacional, permite a expressão diária de sentimentos vis, a justiça não é reconhecida como tal, a riqueza de uns é vista como ofensiva por outros. A imigração suscita ódios insanáveis e introduz graves problemas de assimilação, aprofundando a crise de valores.
Foi este caldo que criou a primeira brecha no projeto europeu, com o afastamento do Reino Unido. Mas, perante a aceleração da história nos últimos tempos, o desnorte no bloco europeu sobre o caminho a trilhar é evidente. Para onde seguir, Europa?