Igual ou pior que a epidemia dos incêndios florestais em Portugal – e não tardam aí outra vez – é a praga de medidas anunciadas, análises, comentários, artigos e opiniões de “especialistas” na matéria, todos debitando causas, efeitos e soluções, para ficar tudo igual e no ano seguinte voltarmos ao mesmo. E todos se acham cheios de razão, o problema está no outro, por norma o decisor político, que está mais à mão e onde fica sempre bem bater. Na verdade, com tanto conhecimento adquirido e com tão boas provas dadas em área ardida, vidas humanas perdidas e bens destruídos, os portugueses deviam ser uma referência de boas práticas a nível mundial. Os ditos especialistas deviam percorrer o mundo a ensinar como é e convidar outros para verem como um país mediterrânico lida bem com as alterações climáticas.
Justamente, neste preciso momento, num lugar da Beira Interior, tenho à minha frente um bom exemplo de como Portugal, campeão europeu em área percentual ardida, é um caso de sucesso: os caules enegrecidos das giestas e de pequenos eucaliptos – que explodiram depois do incêndio de 2017 – combinam na perfeição com os fetos que agora começam a crescer, dando um toque de suave contraste com os solos áridos e lavrados pelas chuvas de inverno, que deixaram entulho, pedras e valas à mostra. O buquê fica enriquecido com umas casas queimadas e não reconstruídas, que se veem lá ao fundo. O quadro fica ainda mais completo se ao natural lhe associarmos o social: uma dúzia de pessoas idosas que encolhem os ombros quando se aborda o assunto, recordam como era e como está, desacreditadas, resignadas.
Especialidades do sítio, portanto, não havendo melhor especialista na matéria do que alguém que viu arder os seus bens em 2017 e outra vez em 2025 (considerando apenas o curto prazo), tendo agora como companhia o quadro de suaves matizes atrás apresentado. Ficou habilitado a falar sobre a eficácia das medidas florestais, mostrando como o Estado conseguiu, em oito anos, substituir pinheiros por silvas e mato, avanço que se assinala dada a revolução que o governo de António Costa prometeu para a floresta após 2017. Passou a conhecer a agilidade com que a Autoridade Nacional de Proteção Civil apresenta meios envolvidos e define estratégias ao mesmo tempo que o fogo avança. Consegue dissertar sobre a ação erosiva da água e de torrentes de lama. Tem conhecimento prático das tortuosidades no recebimento célere de subsídios. E para quem quiser aprofundar conhecimentos e ser mestre encartado na área, só tem de esperar seis ou sete anos. A ação sequencial está marcada.
Estamos, portanto, assim. Uma tragédia sem fim, uma parte do país a que se nega existência, palavras vazias, falhanços sucessivos em toda a linha. Fica a pergunta: como vai ser a análise do próximo incêndio?