quarta-feira, 13 mai. 2026

Copo meio cheio

Os portugueses querem democracia, mas servida em copo cheio, de tinto de boa casta e amadurecido em casco de carvalho. É tão simples ou complicado como isto.

Por esta altura, ainda há quem goste de comparar, sem qualquer contextualização, o momento atual com o período salazarista, exercício tão inútil como comparar o carapau com a sardinha. Felizmente, a esmagadora maioria da população já não presta qualquer atenção a esta comparação incomparável, preocupada com a vida de cada dia, esta, sim, a merecer uma avaliação. 

Os 52 anos de regime democrático são tempo mais que suficiente para permitir esse escrutínio e não faltam avaliadores encartados que colocam peso nas palavras e certeza nas afirmações, comparativamente com as quais as análises do cidadão comum lhes parecem apenas curiosidades. Ainda assim – virtudes da democracia – o espaço continua aberto a todos, mesmo que para dizer, como no caso presente, que a democracia portuguesa é um copo meio cheio, no qual o vinho não passa de qualidade sofrível, comprado nas prateleiras de baixo dos supermercados. 

Para quem pôde acompanhar esta jornada desde o início, tendo entretanto visto passar a juventude, a idade adulta e aproximar a velhice, Portugal 2026 alcançou coisas que nos colocam ao nível do melhor que o mundo tem: em primeiro lugar, uma ampla e efetiva liberdade política e de expressão, a par da paz social. Apesar de alguns incidentes de percurso, em Portugal pode-se respirar. Os sistemas de saúde e de educação, assentes nos princípios da universalidade e gratuitidade são fatores de justiça social. Uma rede de vias de comunicação decente permite a deslocação fácil entre as diferentes regiões.

Ao invés, o país tem também um histórico de meio século de falhanços que, se não obliteram os sucessos alcançados, mancham o passado, condicionam o presente e fazem duvidar do caminho a percorrer. No topo do pódio, o desempenho medíocre dos partidos políticos, numa relação subserviente com a clientela partidária, incapazes de definir linhas estruturantes de desenvolvimento do país, de médio e longo prazo, comummente aceites e reconhecidas, com base nas quais se operacionalizam os programas partidários. Todos os outros males são subsidiários desta ausência de estratégia e visão: serviços essenciais como educação, justiça e saúde mostram uma gestão errática, ao sabor dos ciclos políticos; as finanças andam sempre no fio da navalha; o ordenamento do território permanece uma miragem; as políticas económicas variam ao sabor do vento; valores e princípios, cada um toma os que quer.

Recordam-nos frequentemente a máxima de Churchill, segundo a qual a democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros, o que, por cá, tem servido na perfeição para desculpar a incompetência e invocar o papão da ditadura. Contudo, isso de pouco conforto nos serve. Não é admissível que não consigamos arrancar da cauda da Europa, que o poder se esteja a consolidar como um direito hereditário, a pobreza atinja tantos e as desigualdades sociais não se esbatam. As pessoas sentem-se com direito a que o Estado proporcione serviços de qualidade, que os agentes políticos sejam íntegros e capazes e que a vida política se paute por elevados padrões éticos. Menos que isso é pouco, não chega, não nos serve. Os portugueses querem democracia, mas servida em copo cheio, de tinto de boa casta e amadurecido em casco de carvalho. É tão simples ou complicado como isto.