1 km no IC2

Portugal é um dos países da Europa mais feios, desordenados e anárquicos no que ao ordenamento do território diz respeito

Circulava no IC2 e no espaço de um quilómetro contei: casa, oficina automóvel, armazém, matagal, restaurante, matagal, bomba de gasolina, casa, estande automóvel, loja de produtos agrícolas, casa.

Este horror urbanístico, repetido milhares de vezes por todo o país, mostra o ponto a que chegámos. Portugal é um dos países da Europa mais feios, desordenados e anárquicos no que ao ordenamento do território diz respeito, e isto sem que os naturais e os de fora levantem as mãos ao céu perante tamanha barbaridade. O que só pode ter uma explicação: os de cá detestam a ordem, a organização e o planeamento, o que diz muito sobre nós, e os de fora olham, mas sem ver, para as originalidades desta terra e passam à frente para se instalarem nos resorts, protegidos na bolha que pagaram.

Este jogo de peças mal construído, que apetece mandar abaixo e começar de novo, ganhou forte impulso na bagunça construtiva do pós 25 de abril e, desde então, ainda prevalece na mente lusa a ideia que o terreno de cada um é uma espécie de estado independente com lei própria, sujeito aos caprichos arquitetónicos do proprietário, por mais que isso atente contra os princípios mais básicos do bom senso e bom gosto.

As áreas naturais protegidas estão sob ataque humano, como um alvo a abater, e as urbanas são anárquicas e misturam-se de forma desordenada com os espaços agrícolas, estilhaçados em pequenas courelas, e florestais. Os parques nacionais e naturais pouco têm a mostrar e a floresta, com a mancha contínua de eucalipto, coloca à prova os nervos do cidadão mais calmo e menos envolvido ecologicamente. Os rios selvagens com espécies nativas e com enquadramento paisagístico natural entram no campeonato de raridades que é difícil encontrar.

No construído, nas aldeias as casas típicas regionais passaram a uma recordação distante, a dispersão de casas, casinhas e casinhotos por montes e vales ganhou asas, a fealdade é a norma, o improviso rei e o barraco e a arrecadação nas traseiras são príncipes. As exceções são tão raras que ganharam nome e romarias aos fins de semana. As beiras das estradas e a beira-mar são o depósito onde se acumula todo o delírio construtor português, todos querendo arrebanhar uma parcela desses espaços vitais. Nas vilas e cidades, numa sementeira mal feita, habitações, comércios, indústrias e serviços competem entre si para ver quem introduz mais desordem, desorganização e desarmonia.

Que isto não constitua uma prioridade nacional e um grito de alerta para o futuro é de pasmar. Tem-se investido no currículo escolar na cidadania e na proteção ambiental, com os resultados que estão à vista. Na época dos incêndios também se levantam vozes a exigir rigor no ordenamento, mas debalde, o eu fala alto, o coletivo fica para depois, é o fado português.