terça-feira, 18 ago. 2026

Mais tecnologia, mais humanidade: Porque continuaremos a precisar de Professores na era da IA

“Desarmar a IA” desafia-nos a encontrar e explorar o seu lado solar: aquele que amplia as capacidades humanas sem diminuir a nossa humanidade.

Poucas tecnologias suscitaram tantas expectativas, receios e debates como a Inteligência Artificial (IA). Hoje, multiplicam-se as opiniões, mais ou menos fundamentadas, sobre o seu impacto em praticamente todas as dimensões da vida humana.

Um dos exemplos mais marcantes é a Encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial. Independentemente das convicções religiosas de cada um, parece existir um consenso alargado de que a tecnologia não é uma força contrária ao ser humano, nem um mal em si mesma. Contudo, também não é neutra: reflete inevitavelmente as intenções, os valores e os interesses daqueles que a concebem, financiam, controlam, regulam e utilizam. Daí a conclusão de Leão XIV de que é necessário “desarmar a IA”, libertando-a das lógicas de competição militar e económica, reduzindo a sua dependência dos grandes monopólios tecnológicos e impedindo que se transforme num instrumento de dominação dos seres humanos, sob as mais diversas formas e nos mais variados contextos. “Desarmar a IA” desafia-nos, afinal, a encontrar e explorar o seu lado solar: aquele que amplia as capacidades humanas sem diminuir a nossa humanidade.

Como muitas vezes já foi demonstrado ao longo da História, parar a evolução tecnológica é simplesmente impossível e até indesejável, mas há que gerir esta evolução para que o lado positivo tenha muito mais impacto que o lado negativo. Por exemplo, o código da estrada regula a circulação dos veículos automóveis, permitindo tirar grandes benefícios desta tecnologia, enquanto limita fortemente os acidentes que resultariam de um uso desregulado. Ainda que os cenários de evolução sejam inúmeros, espera-se que a regulação atempada e apropriada possa trazer um futuro assente na orientação correta do progresso tecnológico através de políticas públicas, normas internacionais e compromissos éticos.

Neste contexto, a inovação tecnológica deve ter como objetivo principal servir as pessoas e contribuir para o desenvolvimento humano, promovendo uma melhor qualidade de vida, mais conhecimento, maior prosperidade e uma utilização mais sustentável dos recursos. Mais do que criar soluções tecnicamente avançadas, deve procurar responder aos grandes desafios da

sociedade, reforçar a inclusão e a igualdade de oportunidades, estimular a criatividade e a inovação, e apoiar a tomada de decisões mais informadas. Na era da inteligência artificial, torna-se particularmente importante garantir que a tecnologia permanece ao serviço da dignidade, da autonomia e do bem-estar das pessoas, contribuindo para uma sociedade mais justa, sustentável e centrada no ser humano.

A IA está também a alterar o significado do próprio conhecimento. Num mundo onde a informação é abundante e instantaneamente acessível, o verdadeiro valor deixa de residir na acumulação de respostas e passa a estar na capacidade de formular as perguntas certas, interpretar criticamente a informação disponível e exercer um julgamento informado, autónomo e responsável. Mais do que nunca, o discernimento torna-se uma competência essencial. Paradoxalmente, quanto mais poderosa se torna a inteligência artificial, mais indispensável se torna a inteligência humana.

É precisamente por esta razão que poucos domínios são tão profundamente desafiados pela IA como o ensino, por estar diretamente ligado à formação das futuras gerações. Alguns dizem mesmo que os professores serão desnecessários no futuro, uma vez que os sistemas de IA disponibilizariam aos estudantes todo o conhecimento, respondendo de forma incansável a todas as questões e dúvidas.

Esta visão parece ignorar a dimensão profundamente humana do ensino e o papel insubstituível que um professor desempenha no processo educativo. Se um professor fosse apenas um transmissor de conhecimento, esta profissão estaria efetivamente em declínio, substituída por um simples telemóvel com acesso às aplicações mais avançadas.

Mas um professor é - e sempre foi - muito mais do que um transmissor de conhecimento.

Numa era de Inteligência Artificial, o professor universitário deverá ser cada vez mais um curador de conhecimento, ajudando os estudantes a navegar num mundo de informação abundante; um formador de pensamento crítico, discernimento e capacidade de julgamento; um educador de valores, criatividade, responsabilidade e ética; um orientador de percursos de aprendizagem personalizados e significativos; e ainda um investigador comprometido com a criação de novo conhecimento e com a compreensão crítica das tecnologias que moldam a sociedade.

Mesmo que venha a conseguir simular muitos destes comportamentos, a IA nunca lhes poderá conferir a autenticidade, a profundidade e a reciprocidade

próprias de uma relação humana genuína, pois a relação professor-estudante é profundamente humana e baseada na forte empatia que se deve criar entre ambos.

Um sistema de IA não interagirá subitamente com um estudante numa sala de aula, desafiando-o a confrontar as suas ideias com as dos colegas.

Um sistema de IA não dará a um estudante o sorriso de aprovação, a expressão de surpresa ou a piada que surge no momento certo.

Um sistema de IA não partilhará com o estudante aqueles pequenos momentos informais que criam confiança e proximidade.

Um sistema de IA não motivará um estudante a superar-se porque não quer desiludir o professor em quem confia.

E um sistema de IA nunca dará a um estudante o abraço caloroso de que ele precisa naquele momento difícil.

A Inteligência Artificial poderá transformar profundamente a forma como aprendemos, trabalhamos e criamos conhecimento. Mas o verdadeiro progresso continuará a medir-se pela nossa capacidade de colocar a tecnologia ao serviço das pessoas e não as pessoas ao serviço da tecnologia. Aproveitemos o lado solar de todas as tecnologias, mas nunca deixemos de ser profundamente humanos - porque o futuro será tanto melhor quanto mais colocarmos a tecnologia ao serviço das pessoas e quanto mais humanidade soubermos preservar. Fernando Pereira

Professor do Instituto Superior Técnico, Universidade de Lisboa

* Texto adaptado do discurso proferido no Dia do Técnico 2026, no qual lhe foi atribuído o prémio Professor Distinto do Instituto Superior Técnico.