terça-feira, 10 fev. 2026

A escória branca e a retórica política

A dualidade entre as classes cultas e economicamente elevadas e a escória branca, precária e excluída, nunca foi uma evidência que fosse capaz de polarizar classes com e sem estatuto, nem teve nas últimas décadas representação radical nos partidos de referência governativa ou parlamentar.

Este artigo toma como referência o excelente estudo de Nancy Isenberg "White Trash" publicado em 2018, professora de história na Universidade Estatal de Luisiana, no qual expõe de forma critica e objetiva, como este eleitorado colocou Trump na Casa Branca. Caracteriza estas camadas sociais dando nota das suas fragilidades sociais, culturais e económicas, categorizando as suas identidades e as suas configurações, destacando a miséria cultural e económica de uma “classe” despolitizada e acantonada, dominada pela imoralidade e pela despersonalização. Trabalha em cima dos estereótipos e das classificações estigmatizantes e deterioradas deste sector popular, examinando a retórica política e os fundamentos da ascensão do Partido Republicano.

A autora remete para as classes mais baixas, mais vulneráveis, mais ignorantes e, por isso mesmo, os mais reacionários que viram em Trump uma oportunidade para se fazerem representar e dessa forma atacar o sistema democrático dominado pelas políticas neoliberais que colocaram o Estado de Bem-Estar, numa situação de grande fragilidade e elevada dependência dos partidos que controlam o poder governativo.

Isenberg descreve o quotidiano destas classes pobres, miseráveis e desintegradas que vivem em situação de elevada exclusão social e precariedade económica, em profundo estado de ignorância cultural e educativa, formatados por programas televisivos banais e medíocres. Gente que vive em não-lugares, bolhas onde domina a violência e a carência afectiva e material, sectores onde a desigualdade é persistente e intergeracional. Bolsas de elevada pobreza e estigmatismo social e identitário. Franzas com elevado abandono e insucesso escolar, que nem os cursos feitos à medida lhes garantiram uma vida mais digna e integrada.

Todos nós assistimos às contestações violentas dos jovens franceses que vivem nas periferias desoladas de Paris, incendiando e espalhando o caos nas cidades francesas. É chocante ver como a extrema direita se aproveitou destes movimentos informais e, cresceu perante a desintegração dos partidos democráticos. A senhora Le Pen cresce e afirma-se, enquanto o partido socialista francês é destruído e deixa de representar as classes e os sectores dos trabalhadores nestas primeiras décadas do século XXI. Os Sindicatos perdem capacidade de mobilização, são ignorados pelos partidos do arco do governo, deixam de representar e de orientar estes novos sectores do trabalho. A crise dos sindicatos coincide com a afirmação destes partidos radicais e anti-democráticos. Estamos perante um deslaçar da vida social e económica, uma perda de memória social colectiva em benefício de uma extrema direita radical fascista que perante o desaparecimento do Estado promove o ódio e a violência como coisa natural, na luta contra uma falsa ideia de que se vive uma “insegurança nacional”. O reino das percepções domina sobre as evidencias racionais e quantificadas. A estatística deixou de validar as nossas posições e as nossas opções políticas.

A dualidade entre as classes cultas e economicamente elevadas e a escória branca, precária e excluída, nunca foi uma evidência que fosse capaz de polarizar classes com e sem estatuto, nem teve nas últimas décadas representação radical nos partidos de referência governativa ou parlamentar. Nem os partidos ditos mais populares e nacionalistas, foram capazes de exercer essa instrumentalização política a partir de uma retórica pós-fascista e xenófoba. O aparecimento do partido Chega abriu essa possibilidade e permitiu a esses sectores da escória humana, deserdados do “capitalismo global” e “expulsos” do sistema neoliberal, migrar dos partidos institucionais e reagruparem-se em torno de uma velha e falsa retórica nacionalista que eventualmente lhes garanta o direito a um Portugal que não tem nada de Novo.

Num contexto de grande tensão social e confronto político, o partido Chega tira partido destas massas humanas, que se apresentam como os «condenados do sistema». Explorando a bipolarização entre o pessoal e o político, entre as camadas populares e as elites, numa retórica dominada pela plasticidade dos falsos valores pátrios e da raça, o senhor Ventura é o novo comandante de uma miséria que produz desespero, e onde a desesperança cria acção desesperada.

A ideia de uma elite corrupta, de um Estado ao serviço dos poderosos, contém na sua essência os ingredientes ideológicos da construção de um totalitarismo popular, como única via para «sangrar o sistema democrático» e, conduzir estes salvadores da pátria ao poder. Fazendo o que o Trump está a iniciar nos EUA e, contaminar todas as democracias pluralistas.

Mas, afinal quem é esta gente?

Estes sectores estavam mais ou menos controlados, situados e identificados pelas máquinas partidárias, com destaque para os caciques que as instrumentalizavam. Eram uma espécie de reserva eleitoral de que se fazia uso sempre que era necessário encher pavilhões, auditórios, ruas e praças.

Esta “gente” fez parte de um amplo movimento social que se manteve invisibilizado pela capa dos partidos, disfrutavam de uma espécie de assistencialismo social comandado pelos dirigentes locais e regionais dos partidos políticos. Com destaque para os programas ditos sociais, como por exemplo, as “festas dos idosos”, os “jantares festivos”, as “viagens”, tudo isto foi pago pelo dinheiro público que está disponível em nome do Estado Social. Estes sectores sociais foram alimentados e controlados por todos os partidos políticos, com destaque para o papel das juntas de freguesia e das câmaras municipais, facilitadores no acesso a todos estes mimos.

Em Portugal esta "escória branca" estava integrada no sistema partidário institucional que vai desde o PCP ao BE, do CDS/ PSD ao PS, estes partidos durante décadas foram o lugar privilegiado onde esta escória branca se aninhou, habitou e sobreviveu, participou em caravanas e ajuntamentos populares para demonstração de força social colectiva: os militantes de base.

Eram eles os participantes carismáticos dos festins, do porco no espeto, da sardinha no pão. O povo! O povão! O povo inteiro que recebe abraços e beijos, que berra como canta, que celebra o seu líder enquanto intimida e agredi os adversários. Sempre foi comum a chapelada de votos, discutidos à mesa, entre as massas populares e os furões que falam em nome da elite partidária. Quem não se lembra das cotas pagas, milhares de cotas pagas por um “barão” do partido, a entrega de eletrodomésticos, a promessa de lugar garantido para o filho na câmara ou na junta, tendo por suposto a eleição dos mesmos e a exclusão das alternativas.

Este tipo de escória social sempre foi um instrumento necessário para garantir multidões ruidosas e bandeiras no ar em comícios, marcando as agendas e inflamando as famílias em casa. Deslocavam-se de cidade em cidade, de comício em comício, acompanhavam o líder em autocarros alugados pelos partidos, faziam parte desse exército anónimo que era utilizado para hostilizar opositores, jornalistas críticos, intelectuais desalinhados, classes profissionais, todos os que eram inimigos do partido e da nação. Todos os partidos promoviam este tipo de histeria reacionária, geradora de uma desordem controlada e programada.

Os partidos fizeram uso e abuso deste procedimento eleitoral. Serviu para levantar o ânimo das candidaturas, encher as tv`s de cor humana em adoração ao líder, as visitas aos mercados e feiras, a promiscuidade entre a elite partidária e esta escumalha social era sem dúvida perigosa e desvirtuava a democracia de valores humanistas de base num pensamento critico. Ritual de compromisso entre os barões do partido e a clique popular que presta vassalagem aos seus senhores.

Enquanto, a escória enchia os pavilhões do PSD, do PS, do PCP e do BE a coisa era ignorada e normalizada, a democracia funcionava e a besta não incomodava. Deixamo-nos, arrastar pela imprudência e pela instrumentalização fácil deste tipo de classe até ao momento em que a “besta” decidiu tomar as rédeas, ocupar lugares na Assembleia da República, verberar e insultar, ser actor principal nas redes sociais, no Tik Tok, no Facebook, no Instagram.

No fundo, é o resultado de uma decomposição político-partidária perante a emancipação de um sector social, a escória branca, que se assume como principal figura política de uma transformação social decadente e imoral.

Antropólogo, Investigador CICS.Nova_U.M/LAHB