Perdoai-me senhor magistrado porque pequei. Assumo a vossos pés que, reiteradamente, duas décadas haverá, venho praticando o crime de assassinato que me atribuíste. Cale-me ou bata-me com a cabeça numa pedra, mas faça-o com rapidez antes que o queixoso, por desprezo com os seus direitos, lhe asseste um pontapé nos queixos.
Sim, meritíssimo, pertenço a essa chaga social de criminosos que, com alarido e júbilo, enche o chiqueiro das páginas dos jornais e as aberturas das TV com falsidades e cabalas capazes de destruírem a reputação de um homem inocente. E tenho-o feito com esbanjamento, contrariando outros para quem a presunção de inocência é eterna; para quem um homem deve baixar à terra sem a glória de saber se é culpado ou inocente.
Uma das minhas extravagâncias, senhor magistrado, assumo mais uma vez, tem sido escarafunchar na vida de José Sócrates, a quem uns bons anos de governança trouxe a penúria. Mas eu, com o tacto marginal de quem mal ajuíza, venho negando ser falso a extrema pobreza em que tem vivido. Até porque tem amigos e primos, e amigos amigos dos primos, esses sim, empobrecendo por não lhe negarem um caldo. Nem o caldo, nem viagens de luxo, nem botijas para a alcova, nem a autoria de livros que correm com o seu nome sem serem seus. E, enquanto ele, meritíssimo, sem o pecado da altivez, vem aceitando as esmolas, eu, na minha rudeza, que é semelhante à de Adão a quem o criador expulsou atribuindo-lhe o fardo eterno de viver trabalhando até suar, mais não faço que usar a minha pródiga imaginação para o apoucar. Mas hoje, a tudo isto, ponho um ponto. Cuide o senhor magistrado que repensei as suas palavras: «Ninguém hoje tem dúvidas que José Sócrates foi objeto de uma campanha que constituiu um assassinato de caráter».
E se o absurdo, pelo meritíssimo, não fica melhor justificado eu, que nesta jornada quebrei o corpo, a alma, e até ganhei pulmoeira, abdico do talento da minha criatividade que contribuiu para que o ex-primeiro-ministro, finalmente, caísse na indigência, conhecesse a insónia e a míngua de apetite que só aos pobres aflige, fechasse a torrente de recursos com que anima os tribunais e, por tudo isto e para me redimir, encomendo uma missa, boto uns responsos e prometo não só reescrever como ser um bálsamo na biografia misericordiosa de José Sócrates.