quarta-feira, 13 mai. 2026

Luís Neves, um tagarela expansivo

Além da grosseira violação do segredo de justiça, habitualmente atribuída aos jornalistas, o ministro revelava estar na posse de informação a que, como governante, nunca deveria ter acedido.

A nomeação do ex-diretor da PJ para ministro da Administração Interna colocou muita gente de sobreaviso e de pé atrás. Não foi necessário deixar correr muito tempo para confirmar os receios. Ao terceiro mês de mudança de pasta, já deu para perceber que separação de poderes é uma regra legal prescindível. Esta terça-feira, foi com grande pasmo que o país recebeu a perigosa revelação: o Governo passou a estar informado das investigações judiciais em curso. Vem isto a propósito do caso da esquadra do Rato, em Lisboa, que se notabilizou pela tortura requintada a alguns imigrantes. Nas fileiras da PSP, havia arguidos. O futuro do inquérito era uma incógnita. Mas, na última terça-feira, Luís Neves, um tagarela expansivo, anuncia o impensável. Apesar de ter pulado para o outro lado da barricada, o ministro da Administração Interna mantém o anterior círculo de influências. A meio da manhã, à margem das comemorações do 18º aniversário das Unidade Especial da Polícia (UEP) da PSP, Neves, com a sua aptidão inata para pisar qualquer palco, anuncia: «Hoje, estão a decorrer novas diligências e poderá haver novas detenções no final do dia de acordo com a prova que vier a ser carreada.» Além da grosseira violação do segredo de justiça, habitualmente atribuída aos jornalistas, o ministro revelava estar na posse de informação a que, como governante, nunca deveria ter acedido. Imagine-se se o caso em questão tivesse parentela com a Spinumviva! Para salvar a honra do convento, a PSP e o MP, que dirigem a investigação, com buscas e arguidos ainda por constituir, rapidamente fizeram nessa tarde um comunicado a dar conta das diligências ainda em curso.

Sócrates, fino, dirá hoje aos seus botões: «No meu tempo, não era tão às escâncaras». Balzac, esse, ruminaria: «Há muito que o mundo perdeu a inocência, estamos na corrupção dos séculos, na idade caduca da natureza, tudo é malícia e enfermidade no concurso dos homens».