sexta-feira, 17 abr. 2026

Fazer ou ir fazendo, eis a questão

No essencial, a escola pública, para mal dos alunos e de muitos milhares de profissionais dedicados que nela trabalham, padece de uma falta crónica de estratégia focada nos resultados.

Considerando que em Portugal existem, pelos últimos cálculos, 10.749.635 especialistas em educação, é uma temeridade emitir qualquer opinião na área, sem que os restantes milhões se sintam com direito a intervir em defesa da honra ofendida. É este o problema: como todos se sentem detentores da verdade, com os diversos organismos do Ministério da Educação e inúmeros teórico-articulistas ocupando o pódio, as questões da educação ficam tão complexas, mas mesmo tão complexas, que o melhor é deixar como está ou mexer o mínimo possível.

Vem isto a propósito das reformas que se fazem ou que é preciso fazer no país, sendo a educação um caso clássico de que se vai fazendo, mas não se faz.

Numa retrospetiva curta, desde que o primeiro governo de António Costa reverteu as provas nacionais no 1.º e no 2.º ciclo, dando início à era dourada em que as escolas passaram a responder à diversidade das necessidades e potencialidades de todos e de cada um dos alunos, sob a luz do Decreto-Lei n.º 54/2018, de 6 de julho, que a escola pública, alegremente, caminha para o fundo do poço. De caminho, viu descer  o desempenho dos alunos portugueses nas provas internacionais em que participa e aumentar exponencialmente o número de famílias que optam pelo ensino particular, fartas de experimentalismos e ideias educativas peregrinas, como se o mundo acabasse em Vilar Formoso e não houvesse, sem muitos esforços na procura, bons exemplos do que é preparar alunos para a primeira divisão mundial, ao invés do campeonato regional em que nos situamos.

No essencial, a escola pública, para mal dos alunos e de muitos milhares de profissionais dedicados que nela trabalham, padece de uma falta crónica de estratégia focada nos resultados. Os agentes escolares sentem-se obrigados a reinventar estratégias, alterar métodos de avaliação, desenvolver projetos, garantir articulações e inovações curriculares e definir - até à exaustão! - medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão, cronicamente centradas nos alunos com dificuldades. Quando querem trabalhar com o grosso da turma  e levar a desempenhos de excelência no campo académico e social, estão esgotados e incapazes de dar mais de si.

O ministro da Educação parece reconhecer o problema e tem referido que  a escola, estando a cumprir bem a sua função social, tem de passar para um novo patamar. Os jovens portugueses espalhados pelo mundo a desempenhar cargos de grande relevo mostram que Portugal tem uma matéria prima excelente e o exemplo deles pode ser multiplicado se os alunos com vontade e capacidade, a enorme maioria dos que frequentam a escola pública, merecerem a primazia nas políticas educativas. Mas isso implica opções que não se compadecem com a tónica caritativa atual. O Ministro reconhece, mas não dá o passo, parece que também ele bloqueado pela complexidade. O paradigma da exigência, rigor e qualidade, com objetivos claros e assumidos, continua por cumprir. Enquanto assim for, a escola pública limitar-se-á a ir fazendo.