As eleições presidenciais marcarão, decisivamente, não só o ano político que hoje começa, como os próximos a vir. Não serão apenas mais umas. Serão bem mais do que isso, serão um referendo ao sistema que nos tem governado nos últimos 48 anos. Um sistema assente sobre o rotativismo entre o PS e o PSD. Rotativismo, note-se, de pessoal político e não de políticas, no essencial as mesmas. Social-democracia e socialismo democrático em quase nada se diferenciam, duas faces do socialismo que apenas se diferenciam na maquilhagem. Os resultados destes 48 anos de socialismo mais ou menos mitigado estão à vista.
Quanto às eleições: No essencial, contam os seguintes candidatos: António José Seguro (AJS), apoiado pelo PS. Marques Mendes (MM), pelo PSD. São os candidatos do sistema. Ideologicamente próximo do sistema, mas isento das responsabilidades de passadas governações temos João Cotrim de Figueiredo, apoiado pela IL mas valendo uns pontos mais do que o partido que o apoia. Temos, depois, apoiado pelo Chega, André Ventura (AV), um candidato fora do sistema e contra o sistema. Finalmente Gouveia e Melo (GM) que, não vindo dos partidos do sistema tem, como apoiantes, aqueles que o sistema expulsou para as suas margens, cheios de contas a ajustar com os bonzos da máquina que os marginalizou. Quanto a Gouveia e Melo ninguém sabe o que ele pensa e, de duas, uma: ou pensa tudo e o seu contrário ou, habilmente, dá essa sensação para ocultar o que realmente pensa e quer. Seja qual for o caso, é pouco tranquilizante. Os outros candidatos fazem parte da paisagem longínqua, dizem-nos as sondagens e o bom senso.
Em que medida estas eleições representarão um referendo ao sistema? A resposta é fácil: Se o sistema mantiver, como durante tantos anos manteve, o favor dos eleitores, não haveria qualquer dúvida que os dois candidatos a passar à segunda volta seriam Marques Mendes e Seguro.
Contudo todas as sondagens apontam para que um dos que passarão à 2.ª volta será André Ventura e que Seguro tem poucas hipóteses, antes podendo ser Gouveia e Melo ou Marques Mendes.
Se AV passar com MM irá confirmar-se o que as últimas legislativas já indiciaram ou seja, a definitiva perda de relevância do PS o que levará à rutura do sistema, a muito breve prazo, pela perda de um dos seus pilares fundamentais: por muito que se tente manter-lhe uma vida artificial, a realidade rapidamente se imporá.
Mas caso MM fique, com Seguro, fora da 2.ª volta e nela concorram AV e GM isso representará uma clamorosa derrota do sistema neste ‘referendo’. Significará que os portugueses querem, mesmo, mudar de vida. Já deram fortes sinais de que o querem fazer. A ver se aqui o vão confirmar.
Das eleições em si, sobrará o espetáculo de GM e MM a rebentarem a pontapé os armários um do outro exumando esqueletos das múltiplas prateleiras e exibindo-os nas respetivas varandas. E, ainda, o de um apagado AJS a lamber a ponta do lápis com que laboriosamente a tudo responde. Entre os esqueletos de uns e o exame da antiga 4.ª classe do outro, é esquecer. E Cotrim? Sem paciência para aturar as minudências do partido, decidiu subir os degraus da carreira, três a três, até ao topo. Não costuma correr bem.
O sistema tem vindo a alienar a nossa soberania. Ao Presidente da República cabe, acima de tudo, zelar pela sua manutenção. Este é o grande desafio destas eleições: a escolha de quem tenha a coragem para o fazer.
Vice-presidente da Assembleia da República