segunda-feira, 09 fev. 2026

Uma campanha triste

Falou-se pouco das funções essenciais do Presidente, muito de temas de governação, de baixíssima política e de sondagens.

1. Apesar do massacre de estudos e sondagens, nunca é demais lembrar que é nas urnas que se decide o destino das democracias e as personalidades que as conduzem. O admirável neste sistema é que mesmo os não democratas ou impreparados se podem apresentar. Na política, há funções mais complexas do que outras. No topo estão a de Presidente da República por serem exercidas de forma solitária, sem partilha. É um cargo sem desculpas, eleito de uma forma em que todos os votos têm o mesmo valor ao contrário de legislativas, que funcionam por círculos. Só isso faz uma enorme diferença, tornando essencial que o escolhido tenha sentido do bem comum, bom senso, capacidade de influenciar, arbitrar e de impor um regime de tolerância, sem aceitar desordem e falta de respeito. Ser moderado sem ser mole, no fundo. Infelizmente, nesta campanha, os temas de soberania, de identidade nacional e cultural (como a língua) ficaram de fora. De política de Estado pouco ou nada se falou. Sobraram matérias do quotidiano em que o presidente pouco risca. O substancial da função passou ao lado dos debates, dos moderadores e dos analistas. O percurso de vida pública e privada nos pontos que interessam foram ignorados. Preferiu-se achincalhar, descer o nível e lançar campanhas de inveja do sucesso. Houve até um cheiro a ‘Me Too’ que convirá esclarecer no sítio próprio: a Justiça. No naipe de candidatos é cada cor seu paladar. Do genuíno democrata ao defensor de ditaduras sanguinárias, passando por populistas ‘BCBG’, exaltados nacionalistas e neófitos recém-desembarcados. Alguns parecem produtos comerciais de marca branca e multiusos, o que lhes permite discursos ‘camaleónicos’. A escolha de domingo é vasta, mais parecendo de legislativas ou autárquicas. As sondagens revelam cinco figuras capazes de passar à segunda volta. A ‘Tracking Poll’ diária condicionou a análise da bolha politico-mediática de forma nunca vista. É um método que deu raia várias vezes, a maior das quais foi o espetanço de Rui Rio. Estava empatado no papel. No fim do dia, Costa deu-lhe uma abada e conseguiu uma maioria absoluta. Se, apurados os votos, os resultados forem diferentes do que foi sendo proclamado, terá de se refletir sobre o método. Na terça-feira, um estudo de fundo da Universidade Católica reduzia as hipóteses de passagem de cinco para três candidatos. Apesar estar baseado em voto em urna, tinha o senão de ter feito há uns dias e de não abranger os emigrantes, as ilhas, os indecisos e os que admitem mudar de opinião em cima da hora. Tudo em aberto, portanto, mas com favoritos mais claros, coisa que uma terceira sondagem, esta da Intercampus, também admitia ao dar uma distância de 6% apenas entre o primeiro e o quinto, referindo 19% de indecisos, uma enormidade. Já a Aximage apresentava contas bem diferentes, com Ventura e Seguro a passarem folgados à segunda volta com cerca de dez pontos de avanço relativamente Cotrim, Mendes e Melo, por esta ordem. No meio disto, o melhor é guardar os prognósticos na gaveta e esperar pelas projeções ou, melhor ainda, pelos resultados desta triste e deplorável campanha.

2. Quase sempre que há concursos para alugar ou comprar aviões, helicópteros, ambulâncias de socorro ou outros equipamentos de proteção civil, cheira a esturro. Não se contam as notícias à volta dessas e outras aquisições, que muitas vezes envolvem empresas de vão de escada ligadas a pessoas do meio. É certo que há problemas semelhantes noutras áreas postas a concurso, algumas das quais envolvem muitos milhares de milhões e obras gigantescas. Até por isso, os casos em que estão em causa meios essenciais de ataque a sinistros e de apoio a pessoas em risco são particularmente chocantes, apesar de recorrentes. Veja-se o ridículo que existe há décadas de ambulâncias e bombeiros ficarem horas parados à porta dos hospitais por não se lhes devolverem as macas, alegadamente por não haver camas leves para colocar os doentes. Ninguém de bom senso acredita em tão pífia explicação, quando os custos com a saúde estatal se elevam a mais de 17 mil milhões por ano. Nem mesmo uma incompetência tipo Guiné-Bissau permitiria tal coisa. Tem de haver razões mais fundas. Como diria alguém: investigue-se!