1. Três semanas podem ser uma eternidade política. Viu-se na primeira volta das Presidenciais, embora agora seja altamente improvável a derrota de Seguro, um moderado resiliente, educado, experiente e sem temas controversos na sua vida. Do outro lado está Ventura, um político que subiu a pulso e representa uma direita radical não extremista. Desde logo em temas internacionais em que difere por defender a Ucrânia. Ventura sabe incorporar e reproduzir o discurso dos inconformados, dos que se sentem explorados ou parasitados por quem não cumpre. Afirma-se contra o sistema, mas é parte dele como o provam dezenas de entendimentos e proclamações populistas que fez conquistar o povo de esquerda. Em França, Marine faz o mesmo. Seja como for, temos uma conjuntura estranha. Mostra uma direita maioritária que não teve um candidato de unidade. E, assim, deve perder a presidência da república ao fim de vinte anos, ressuscitando a ideia julgada anacrónica dos ovos e dos cestos. Já Seguro assinou uma vitória retumbante sobre costistas e socráticos, exemplarmente representados nas cambalhotas circenses do ex-trotskista Santos Silva. Seguro tinha 10% de intenções de voto em agosto e acabou a segunda volta com mais de 31%, depois de uma corrida que iniciou com um punhado de amigos. Repetiu o feito de Sampaio, que o PS também não queria, apesar de ser presidente da Câmara de Lisboa. Teve semelhança, ainda que vaga, com a primeira candidatura de Soares, combatida por enistas e metade do PS. Marcelo também correu sozinho e contra a vontade de Passos que o achava um catavento. Há algumas semanas, antecipou-se aqui que Ventura e Cotrim nunca chegariam a presidente. Falta conferir Ventura. Cotrim falhou redondamente. O seu resultado foi apenas interessante, apesar das redes e da moda. Pode regressar a Bruxelas e concentrar-se no processo que prometeu mover contra quem o mencionou como autor de alegadas práticas de assédio. Cotrim foi determinante para dividir o espaço da AD. Desde logo porque foi pioneiro nas insinuações infundadas sobre Marques Mendes, as quais tiveram inegável impacto. Mendes perdeu mais por efeito desses ataques do que por falhas de campanha e de mobilização, uma vez que as suas ideias são consensuais na sociedade moderada. Terá errado ao não reagir em contra-ataque feroz à postura agressiva de Gouveia e Melo no debate entre ambos. Já o ex-almirante confirmou o que se percebeu desde o seu primeiro discurso de candidato. Um vazio de ideias e uma panóplia de táticas oportunistas atamancadas de um dia para o outro. A campanha foi também marcada pela Tracking Poll TVI/CNN. Contaminou o comentariado, que a foi dando por certa. Depois de ter sido alargado para ser mais preciso, abandonando a ideia de renovação limitada da amostra, o estudo indicava, no dia 16, sexta-feira, o seguinte: Seguro 25,1%; Ventura 23%; Cotrim 22,3%; Melo 11,6%; e Mendes 11,5%. Ora, o resultado apurado veio a ser o seguinte: Seguro 31,11%; Ventura 23,52%: Cotrim 16%; Melo 12,32% e Mendes 11,32%. Errou em dois candidatos fulcrais: Seguro e Cotrim. As sondagens serão mais fáceis nesta segunda volta, mas não há vencedor antecipado. Desde logo, porque eventuais debates podem voltar a ser decisivos. Sobretudo para Ventura. Para Seguro nem tanto. Mas não haver pelo menos um é impensável.
2. Após o afastamento do candidato do PSD, Montenegro deu liberdade de voto. Faz sentido. Um governo tem de lidar com quem for eleito presidente. Além disso, PS e Chega são ambos essenciais no parlamento. Acresce que o PSD é interclassista e multipolar desde sempre. Forçar uma decisão era suicida, mas no espaço PSD/AD surgiu logo uma catadupa de apoios a de Seguro. Passos cala-se e todos percebemos porquê...
3. São gravíssimas as acusações que impendem sobre polícias da esquadra do Rato em Lisboa e os colegas que partilharam (sem denunciar) imagens de torturas a detidos. Recentemente, registaram-se outras situações de maus tratos, envolvendo elementos da GNR e um PSP que enquadravam um sistema de controlo esclavagista de imigrantes, no Alentejo. São crimes que justificam mão pesada da Justiça. Mas também que os responsáveis das forças de segurança e os políticos exerçam maior controlo. Simultaneamente, exige-se (como reclamam dirigentes sindicais) que as carreiras sejam revistas, a fim de voltar a atrair gente com mais valores cívicos. Quando se sabe a miséria que ganha um polícia, as condições deploráveis em que trabalha e vive, entende-se porque é que o nível de recrutamento é cada vez menos exigente. É inaceitável regressarmos à brutalidade gratuita que era corrente em certas esquadras e postos há uns anos. A forma como as forças de segurança exercem a sua missão é um indicador do grau de civilização de um país. E Portugal nem sempre tem tido boa cotação.