1. É mais claro falar de voto inútil. Estão na estrada 16 candidatos presidenciais. Só dois passam à segunda volta e há alguns que, chegando lá, nunca ganharão. É, pois, óbvio para qualquer cidadão racional que é inútil votar em certos concorrentes. E não vale a pena ir buscar o exemplo das eleições de 1986 entre Soares e Freitas para comparar. Na altura, havia mesmo um voto útil na primeira volta para um genuíno democrata. Consistia em votar Soares, a fim de que a segunda fosse disputada entre ele e Freitas. Ou seja, figuras que não se deixariam manipular por comunistas, eanistas do PRD, anti-soaristas ou extremistas de esquerda. Vejamos hoje em quem é inútil votar. Desde logo, Manuel João Vieira e Humberto Raimundo. São exibicionistas, embora o primeiro possa ter uma graça gasta e receber o voto dos anarcas. O outro anda por aí vestido à Dom Afonso Henrique. Ambos tornam Tino de Rans um estadista. Há depois o naipe das esquerdas pesadas. Começa em André Pestana, um profissional do sindicalismo de professores. Segue a aburguesada eurodeputada Catarina Martins que tenta preservar os resíduos do Bloco. O cardápio comporta também o suave ortodoxo comunista António Filipe e Eduardo Jorge Pinto vindo do Livre, uma agremiação de deserdados do Bloco e do PS, que deve desistir. Para alguém de esquerda votar numa destas criaturas é um inesquecível favor a todos os candidatos, excetuando Seguro, representante de uma esquerda moderada, civilizada e pró-ativa. Já à direita a apreciação coloca-se noutros termos. A inutilidade centra-se em duas figuras que, embora representativas e capazes politicamente, jamais serão eleitas. O mais óbvio é Ventura, cuja taxa de rejeição é monumental. O outro é Cotrim. É certo que o liberal tem tração, como agora se diz. Ventura e Cotrim são os principais votos inúteis, entre todos os possíveis, à direita ou à esquerda. É inverosímil qualquer um deles ganhar um duelo final a Marques Mendes, Gouveia e Melo ou António José Seguro. O próximo presidente deve ser um destes três. Dois são políticos experientes, conhecidos e com provas dadas num mundo complexo, nacional e internacionalmente. Já Gouveia e Melo é um outsider ‘zigzagueante’, desembarcado do mundo militar onde abundam sub-reptícias ligações políticas. É um tiro no escuro.
2. Para analisar a situação na Venezuela vamos por partes, em pergunta/resposta. Trump fez bem em capturar Maduro? Sim. Era um ditador sanguinário que gerou 8 milhões de expatriados, um narcoterrorista e perdeu duas presidenciais. Foi uma intervenção contra um chefe de Estado? Não. Foi uma ação policial. Maduro não era reconhecido por dezenas de países. Violou-se o Direito Internacional? Parcialmente. O regime chavista permanece através da vice-presidente. Não houve invasão permanente. Além disso, esse direito também integra os Direitos Humanos e o direito à autodeterminação. Trump fez bem em não pôr no lugar de Maduro o presidente eleito, Edmundo Gonzalez? Sim. Qualquer solução passa ainda pela estrutura chavista, a presidente interina e sobretudo por os militares não se dividirem, controlarem as milícias chavistas e os exércitos dos narcotraficantes. Sem isso uma guerra civil é quase inevitável. E um regresso inopinado de Corina Machado pode ter um efeito perverso. Trump só quer petróleo? Não só, até porque os EUA são os maiores produtores do mundo e há outras riquezas que lhes interessam. Quer também menos tráfico de droga. Mas, claro, procura aceder no futuro às maiores reservas de petróleo do mundo e evitar que a China e a Rússia ganhem vantagem. Trump pode fazer o mesmo na Colômbia? É improvável. É uma democracia, tem eleições este ano e é possível intensificar internamente a luta contra a produção de coca. E pode atacar Cuba? Cuba cairá sozinha, mais tarde ou mais cedo. E a Gronelândia? Uma ocupação seria um caos mundial, mas era questão de minutos. Todavia, é prudente não excluir a hipótese por parte do paranoico Trump. A Gronelândia é autónoma. Os seus habitantes podem torná-la independente do reino e há muitas formas de os americanos lá entrarem, como já vêm fazendo. Trump pode ser afetado com isto e perder as eleições deste ano? É provável que afete alguma coisa. Mas se perder será pela economia. Uma derrota poderia abrir um processo de destituição, igualmente perigoso para o mundo.
3. Sábado, 3 de janeiro, pouco antes das sete da manhã em Lisboa. Ocorriam bombardeamentos e tiros em Caracas. Ali vivem milhares de portugueses e lusodescendentes. SIC Notícias, CNN e NOW estavam em direto com imagens e já tinham comentadores. A RTP Notícias passava a Janela Indiscreta (Take 17 episódio 53) e a RTP1 o Zigzag. Nos dias seguintes a correspondente nos Estados Unidos mantinha-se de férias por cá. Não houve visão portuguesa da captura de Maduro, da apresentação a juiz e das negociações sobre a Ucrânia. Alô Conselhos de Administração, Geral Independente, de Opinião e de Redação da RTP. Viram esta prestação de Serviço Público?