quinta-feira, 14 mai. 2026

O ‘Sheriff’ Neves

O novo MAI é músculo e ação direta.

Nota prévia: O Presidente Seguro está no início do mandato e pode fazer dois, ou seja, dez anos. Fechou-se o ciclo comemorativo dos 50 anos do 25 de Abril e o Governo tem três pela frente. Teoricamente, só corre o risco de ir abaixo se lhe chumbarem o orçamento de 2028. O PS está bem nas sondagens. A oposição interna de Cordeiro a Carneiro só deve avançar quando o calendário apertar. O Chega está em todas para agradar a todos. A esquerda pesada está catatónica e a IL sobrevive, detestando-se uns aos outros. O verão está à porta. Depois mete-se o Natal. A governação é o que tem sido nestes dez anos: muito anúncio, remendos e pouca obra. Tal como Costa, Montenegro investe no imobilismo, enquanto outros o fazem no imobiliário. A maior crise é na incurável Saúde. O turismo cresce com a crise mundial. Puxa a carroça, com uma ou outra área. Os muito ricos acumulam. Os mais pobres recebem subsídios sucessivos, mesmo que pouco tenham contribuído. A classe média e média alta paga para todos. O ministro da Reforma do Estado transfere alegremente tarefas para um ‘palhaço cidadão faz tudo online’, que ninguém quer receber ao vivo. A gritaria política entretém a bolha. Até ao dia em que uma eventual notícia ou ação judicial vire tudo do avesso novamente. Será?

1. Depois do fracasso de um par de ministras discretas e ineficazes, temos um ativíssimo titular da Administração Interna. Luís Neves, que até há pouco investigava governantes e não só, em articulação com o Ministério Público, trouxe para o executivo o estilo frontal e interventivo exibido na Judiciária. O jeito lembra certos Sheriffs justiceiros texanos de televisão. Não há hesitações. Há músculo! À hecatombe pascal das estradas respondeu com uma reestruturação relâmpago da GNR e uma caça à multa que (segundo o próprio) não se importa que se diga que é efetivamente o que é: uma caça à multa! Estamos esclarecidos! A anterior titular do cargo foi fulminada. De nada lhe valeu dizer que alguém tinha de ficar no gabinete a orientar um país devastado pelos temporais. Luís Neves é ação direta. No fim de semana saltou para as pantalhas. Garantiu que a dívida de 20 milhões do INEM aos bombeiros vai já ser resolvida (a ver vamos). A sua próxima grande campanha é o combate aos fogos, o nosso outro flagelo. Mas há mais matérias a tratar. Desde logo a desleixada segurança de proximidade a cargo da GNR e da PSP, cujos profissionais continuam miseravelmente pagos e sem auferirem subsídios comparáveis aos seus congéneres da PJ, apesar de correrem mais riscos operacionais. Isto para não falar do que tenciona fazer com as inúteis polícias municipais, meros fiscais autuantes. Sobretudo não se o viu delinear ações de prevenção e defesa da vítima quando as forças de segurança tomarem contacto com casos de violência doméstica, o crime mais generalizado e brutal da sociedade portuguesa. Luís Neves chegou cheio de energia e certamente confiante quanto à solidez judicial do governo. Este MAI tem um grande potencial de tração política, como agora se diz. Mostrou determinação, planos inovadores e parece confiante de que vai ter os meios que os antecessores não tiveram. Todos esperamos sentir efeitos concretos da sua ação nas cidades, nos campos e nas serras. Já nas televisões as ‘overdoses’ de propaganda são indesejáveis. Podem mesmo ter efeitos perversos.

2. Embora o número de fumadores diminua, o chão português continua coberto de milhares de milhões de beatas. É nojento e terceiro-mundista. Um filtro de cigarro leva até 12 anos para se dissolver. Não há cinzeiros, políticas ou multas aplicadas para evitar esta poluição. O desleixo governativo é inaceitável, quando se sabe que o Estado é quem mais ganha com o tabagismo. 

3. O Governo está, entretanto, a desenvolver o programa Volta. A recolha de recipientes através de equipamento específico faz sentido e deve ser premiada. Este tipo de políticas públicas chama-se nudging. No seu rigor deveria pressupor um benefício pela reciclagem e não um sistema montado com recurso a mais uma taxa de dez cêntimos (são milhões, portanto) em cima de cada recipiente de líquido pago pelos consumidores. E também pelas superfícies comerciais, que suportam o equipamento e cedem espaços a valer muito dinheiro. Em Portugal resolve-se tudo pondo o cidadão a fazer coisas que competem ao Estado e para as quais já recebe cerca de 4 mil tipos de taxas e ‘taxinhas’.

4. Os automobilistas são outro alvo do fisco e de todo o tipo de negócios e extorsões por parte dos governos, autarquias, construtores e gasolineiras (a próxima golpada vai ser sacar um euro para conferir o ar dos pneus). Quem tem carro convive nas estradas com quem beneficia de uma discriminação positiva. As motos circulam à balda e não são sujeitas a inspeções obrigatórias, apesar de serem responsáveis por inúmeros acidentes graves. Quem permite isto? Quem ganha?

5. Nota final: Na vida há um tempo para tudo. Com esta crónica termino a minha ‘Rédea Solta’ semanal no Nascer do SOL, iniciada ainda no jornal i. Agradeço ao Mário Ramires o convite, a confiança, a total liberdade e o apoio dado em mais de 700 crónicas. Agradeço também aos outros diretores, editores e profissionais. Especialmente a Carolina Silva, responsável pela opinião, sempre atenta, tolerante e amiga, mesmo quando me esticava no texto. Agradeço à Joana Andrade o acompanhamento impecável no online. Uma palavra muito especial é devida ao meu amigo e consistente jornalista Jaime Marques de Almeida. Teve a paciência e compaixão semanal de rever os meus textos, evitando deslizes na escrita e, sobretudo, chamando a atenção para algumas incongruências narrativas ou de raciocínio, inevitáveis quando se opina anos a fio. Agradeço carinhosamente aos que tiveram a paciência de me ler, concordando ou não. Registo que o Mário Ramires deixou aberta a porta para que publique o ‘Rédea Solta’ sempre que eu entender, no online ou em papel. Uma tentação, portanto…