Nota prévia: Apesar dos avisos sobre o potencial de destruição da Kristin (deixando de lado o Leonardo), não se viu um reforço preventivo para minimizar os seus efeitos, como sucede em Inglaterra ou em França. Havia meios em prontidão para consequências eventuais, mas isso é o mínimo. Apesar de a calamidade ter gerado rajadas de 200 Km/h, exigia-se mais. Tal como se deveria ter evitado o absurdo de morrerem tantas pessoas em consequência do temporal como de acidentes na reconstrução ‘ad hoc’. Juntaram-se a nossa eterna incapacidade preventiva e o desenrasca malsucedido. A tal ponto que quase só um dia depois da devastação se teve noção da catástrofe. Viu-se pelo atraso do governo em reagir, pela palhaçada do vídeo de Leitão Amaro e o desaparecimento da ministra da administração interna. Para não falar do despudor imaturo e demagógico de Ventura. Agora é o costume. Especialistas a dar bitaites. Promessas de apoios que nunca vão chegar. Seguradoras parasitárias a fazer juras. E inéditos fenómenos de burlas e roubos. Tem valido a força solidária da vizinhança. Das notícias desapareceram os tempos de espera nas urgências e crianças nascidas em ambulâncias. As forças armadas tardaram outra vez em ser mobilizadas. Gouveia e Melo daria um jeitão à frente da Proteção Civil e da reconstrução se não se tem metido na corrida a Belém. Em 1980, um sismo violento arrasou Angra do Heroísmo. Um homem notável, Correia Guedes, coordenou com poucos meios a reconstrução. Infelizmente ele já não está entre nós, mas ficou o exemplo.
1. No domingo, às 20 horas, teremos um Presidente eleito. Sabemos já que será António José Seguro. A partir desse momento, Marcelo Rebelo de Sousa será Presidente em exercício, situação que manterá até à transmissão de poderes. Não é ainda possível ter o recuo desejável para fazer um balanço detalhado dos dez anos de Marcelo. Mas reconheça-se que ele foi ‘o amigo mais certo das horas incertas’ dos portugueses e dos que cá vivem. Houve incontáveis situações em que Marcelo reconfortou, pressionou governos para atuar, umas vezes de forma pública e outras em privado. Nos seus mandatos passou por uma pandemia assassina jamais vista; desastres terríveis como os grandes incêndios que ceifaram dezenas de vidas; acidentes sucessivos como a tragédia do elevador da Glória; uma economia a fragilizar-se; uma Europa em perda; pobreza a virar miséria absoluta; riqueza a concentrar-se sempre nos mesmos; uma guerra no seu continente, fruto da invasão da Ucrânia por Putin; chacinas em Israel e Gaza; países como o Irão, Líbano, Síria e Líbia entregues a terroristas; a ordem económica a mudar; a eleição de um louco megalómano no principal país do mundo; relações complicadas com os Palop e o Brasil; e o wokismo e as direitas radicais a crescerem em polos opostos. Verificaram-se também dezenas de desaparecimentos de figuras de referência da nossa sociedade. Houve crises políticas inesperadas e angustiantes. Decisões difíceis de dissolução do parlamento. Necessidade de impor legislativas por causa de uma investigação que ainda dura. Isto para, pouco depois, ter de reincidir na convocação de outras eleições por causa de uma moção de confiança recusada no parlamento, tendo subjacente um alegado caso de negócios do primeiro-ministro. Não faltaram escândalos regulares na política e nos negócios de contratação com o Estado, processos judiciais descredibilizados por artimanhas, falhas constantes em áreas fundamentais como a saúde e o socorro de emergência às populações. A violência doméstica cresceu. A insegurança interna também, assim como a xenofobia, fruto de uma política de imigração absurda. Houve mesmo uma ofensiva para envolver o Presidente no caso das gémeas. Tudo isto com alguns problemas de saúde que levaram a duas intervenções cirúrgicas e outros episódios. É verdade que Marcelo foi infeliz em certas declarações, exagerou em aparecer onde não devia e teve injustificada tolerância com os governos. Mas ele é assim. Naturalmente prolixo e fluente. Todos o sabíamos quando o elegemos e reconduzimos. É certo que muito do que aconteceu faz parte do ciclo de todas as presidências. Mas Marcelo teve o grande mérito de, em todas as horas críticas, ter mantido o seu traço distintivo: a relação direta, amiga e, estranhamente, pessoal com todos os portugueses, até mesmo com os que não o apreciam, mas que normalmente lhe reconhecem inteligência e compaixão. Para os portugueses, Marcelo é alguém da casa. O Marcelo dos afetos não foi uma invenção política de consultores. O Marcelo Presidente, profundo, culto, católico praticante e convicto, intelectualmente superior, imprevisível, por vezes um tanto perverso e traquina, é o que fomos conhecendo desde os primórdios do Expresso. Nas muitas condecorações que outorgou foi justo e equilibrado, falhando, como ele sabe, no caso de Emídio Rangel, tal como Cavaco e Sampaio. É provável que Marcelo fique na História como o Presidente dos afetos ou o Presidente Amigo. Mas foi também a escolha certa para estes anos difíceis e alguém que se entregou totalmente aos portugueses na sua solidão, nunca falhando nos momentos complicados. Ao sair dá outro exemplo, ao anunciar que vai prescindir da pensão presidencial, optando só pela de Professor Catedrático jubilado. Lá está uma semelhança que Seguro tem com ele, já que, depois de perder a liderança do PS para Costa, se fez à vida, sem requerer a pensão vitalícia a que tem direito.