Nota prévia: A ministra Rosário Palma Ramalho pode não conseguir mais nada de espetacular, mas já valeu a pena ter estado no Governo. Isto porque deu seguimento a uma petição exigindo que os funerais de crianças e de deficientes profundos passem a receber subsídio idêntico ao de quem descontou para a segurança social. Dir-se-á que era o mínimo e que a situação era absurda e cruel. É verdade, mas existia! E foi a atual titular, que não é tida por ser alma especialmente sensível, que resolveu a questão com justiça. Bem-haja, pois!
1. Durante 16 anos, Orbán governou a Hungria, criando paulatinamente um regime corrupto, vassalo de Putin, anti-ucraniano, iliberal, fã do trumpismo, e anti-União Europeia. Como a jiboia, Orbán foi asfixiando a jovem democracia húngara. Tomou conta de todos os setores. Criou uma oligarquia rica e dominante. Exportou a sua ideologia infecciosa para a Europa ocidental, financiando partidos nacionalistas e projetos de comunicação. Aparentemente, o consulado de Orbán e dos seus comparsas acabou domingo. Peter Magyar conseguiu um resultado suficiente para desconstruir legalmente (visto que tem mais dos dois terços de mandatos necessários) o ordenamento jurídico-constitucional de Orbán. Além da rejeição popular à asfixia democrática, valeu a Magyar a gigantesca degradação económica e a adesão de uma juventude dinâmica pró-ocidental que agregou quase todas as correntes de opinião, da esquerda à direita, apesar de ele próprio ser um conservador dissidente de Orbán. Desengane-se, todavia, quem pensar que Orbán é passado absoluto. Ele anda por lá e vai estar ativo. Para que não se verifique um regresso de tipo trumpista, não basta desarmadilhar o regime legal. É haver essencial crescimento económico, evitar divisões ideológicas fúteis, combater os inevitáveis boicotes vindos de Putin, de Trump, da extrema-direita europeia e de países como a Eslováquia (uma réplica da Hungria) e a Sérvia. Orbán perdeu, mas Magyar e o povo húngaro ainda não ganharam nada, a não ser a simpatia das anémicas democracias europeias, a quem cabe restabelecer em força o suspenso fluxo de apoios estruturais. Seja como for, a esperança renasceu no primeiro país do Leste comunista que, em 1956, tentou heroicamente, mas sem êxito, libertar-se da URSS de que Putin é herdeiro.
2. Está à vista que o resultado prático das negociações entre os EUA e o Irão foi quase nulo. Apenas confirmou que, mesmo nas maiores guerras, se mantêm ativos canais de comunicação, como se viu entre nazis e aliados. A diplomacia tem muitas formas e protagonistas. Porém, o reverso existe quando os contactos se tornam inúteis perante líderes afetados por crises delirantes. Foi o caso de Hitler. E pode ser o de Trump. O Presidente americano é um doente mental, egocêntrico e perigoso. Aquilo que qualquer europeu ocidental médio identifica em poucas horas (os russos veem logo, mas calam-se por amor à vida), leva mais tempo para um americano entender. Viu-se com Biden, incapaz de dirigir o país nos últimos dois anos de mandato. Os democratas dos EUA já não estão sós no diagnóstico a Trump. No próprio MAGA e nos republicanos, a demência já é amplamente reconhecida. O problema é que não se vê solução legal sem dar tempo a Trump para provocar um cataclismo político extremo. A sucessão de erros e enxovalhos tornam-no cada vez mais perigoso e imprevisível. A imagem que ele publicou de si próprio replicando Jesus a curar Lázaro e a respetiva explicação dispensam diagnósticos sofisticados. As recentes demissões na sua administração são outro sinal de desorientação e distúrbio. Nem os seus mais próximos estão ao abrigo de fúrias e caprichos. A própria Melania há muito que se desligou da criatura e trata de si própria e do filho de ambos. Somam-se indícios de que Trump pode não aceitar os resultados das eleições de meio de mandato. Ou, pior, tentar impor uma sua terceira candidatura à presidência, gerando um pandemónio interno. Há que olhar para o relacionamento Trump/Vance com muita atenção. Trump é maluco, mas não é parvo. Mandou o jovem vice para duas missões fracassadas à partida, na Hungria e no Paquistão. Vance sabia-o, evidentemente. Se tentar libertar a América do tresloucado Trump, é bom que se recorde que Mike Pence, seu antecessor, só por pouco não foi enforcado por trumpistas em fúria no Capitólio por ter validado a vitória de Biden.
3. Pacheco Pereira falhou no propósito de debater com André Ventura com base em factos verificáveis. No mundo mediático de hoje, tentar isso com um populista de direita, em televisão ou num parlamento, é impossível. A menos que se use o mesmo registo, como Catarina Martins. Ventura recorreu a truques demagógicos, comparando um ciclo curto e horrível (o PREC) a um regime estruturalmente ditatorial. Pacheco Pereira nem sequer conseguiu explicar que o salazarismo tanto oprimiu os povos colonizados como o suposto colonizador com a guerra do ultramar. Uma inutilidade de hora e meia que só exacerbou mais os ódios.
4. Domingo há um Sporting-Benfica que muito interessa ao FC do Porto. Acontece numa altura em que a violência física e verbal em certos desportos de equipa tem voltado a aumentar, designadamente no futebol. A isso não é alheia a redobrada competitividade e o dinheiro envolvido em transferências e apostas. A mudança geracional nos grandes clubes não diminuiu a agressividade. O trio Villas-Boas, Varandas, Rui Costa até regrediu face a alguns antecessores. As federações nacionais e internacionais estão manietadas porque muitos dos seus dirigentes são peões de interesses. Os diversos tipos de violência das claques só são possíveis porque se fecha os olhos. Os governantes não podem alhear-se destes factos. Devem ser firmes, já que o ‘fair play’ não se decreta. Se for preciso, impondo sanções, cortando apoios, proibindo público ou jogos, sobrepondo-se a organizações transnacionais. Nada fazer, é pactuar com o poder planetário do lóbi dos donos da bola.