quarta-feira, 15 abr. 2026

Habilidades

Há coisas muito pouco claras no nosso quotidiano político.

Nota prévia: As primeiras palavras do Presidente Seguro surtiram efeito. Relançaram a negociação do pacote laboral. A CGTP-PC ficou do lado de fora aos berros, por não ter sido chamada. Ela que sai sempre a bater com a porta e aos gritos. Desta vez a ministra trocou-lhe as voltas. Mandou assessores despachar os arruaceiros. Mas não haja ilusões. Com ou sem pacote, a selvajaria laboral vai manter-se no privado e os sindicatos continuarão a pôr e dispor setor público e administrativo do Estado. 

1. Com o novo Presidente em funções, Carneiro reeleito no PS, o Chega líder da oposição e a AD a governar por uns tempos, nada justifica a incapacidade do parlamento eleger os membros de diversos órgãos externos, nomeadamente do Tribunal Constitucional e do Conselho de Estado. O impasse revela habilidades, imaturidade democrática e desrespeito pelo resultado das legislativas. Já o das presidenciais mostra que se atribuiu ao Chefe de Estado o direito de pressionar. Veremos se as primeiras audiências que concedeu aos partidos parlamentares contribuíram para desfazer os imbróglios. Seria uma segunda vitória de Seguro em pouco tempo.

2. José Luís Carneiro foi, pois, reeleito líder do PS com mais de 96% dos votos. Parece um triunfo glorioso ou estalinista. Na realidade pode vir a ser ‘poucochinho’. É que não falta no PS quem não preze Carneiro e muito menos Seguro. No regaço de lugares de recuo, essa gente antevê lideranças alternativas. Eventualmente um Cordeiro para substituir o Carneiro, sacrificando-o como o borrego da Páscoa, talvez um tempinho antes de legislativas. De entre tantos fiéis escudeiros de Sócrates e Costa, nem um apareceu a dar luta. Mesmo que não entusiasme, José Luís Carneiro teve sempre a coragem de se afirmar como alternativa a Costa. Chapeau!

3. O Banco de Portugal tem (e bem) um regime próprio de remunerações e carreiras, dada a sua função reguladora e a exigência de independência. Para isso até existe um fundo de pensões próprio. Esta situação específica foi, aliás, reforçada desde a criação do BCE, a cabeça europeia dos bancos centrais nacionais. As regalias e remunerações do BP foram sempre aceites pela sociedade. Porque havia uma lógica e porque os beneficiários eram respeitados e davam-se ao respeito. A notícia da reforma antecipada de Mário Centeno veio perturbar essa visão, face a supostas condições vantajosas dadas na contagem do tempo efetivo e na idade. É essencial que o atual governador, Álvaro Santos Pereira, esclareça a situação. O BP não está fora do escrutínio democrático, como prova André Ventura ao chamar o governador ao parlamento. Centeno está a protagonizar mais um sarilho. Deixa o BP com uma sibilina declaração ao DN, insinuando um possível futuro político. Logo ele que não tem feito outra coisa. Transitou de ministro das finanças para governador. Ali, fez política partidária contra o governo AD. Antes, alimentou elucubrações sobre uma substituição de António Costa no governo e uma possível candidatura a Belém. Após a sua não recondução como governador tentou e falhou uma carreira internacional, sem que ninguém ligasse ao Ronaldo das Finanças. Agora vai para Miami dar aulas, mas garante gabinete no ISEG, a sua faculdade. É uma acumulação que nenhum outro reformado consegue, sem consentimento do Ministério das Finanças. Porém, há males que vêm por bem. Seria positivo aproveitar para expor ao país dados sobre a situação e o quadro de pessoal do BP. Não os que estão aposentados. Antes aqueles que estão fora. Por exemplo na política ou lugares relacionados. 

4. Sucedem-se querelas e escândalos no Chega. Nem o PRD foi tão rápido a degradar-se. Há dias, Rita Matias veio a público convidar o vereador de Lisboa, Bruno Mascarenhas, a demitir-se depois de se saber que a namorada deste (ela própria ligada profissionalmente à câmara de Lisboa, de onde foi exonerada) era parte de uma empresa exploradora de imigrantes, a quem alugava casebres a preços exorbitantes. Obviamente que Matias, segunda figura mediática do Chega, teve a cobertura tácita do líder. Todavia, poucos apostam que Mascarenhas ceda o lugar a outro membro do Chega. Afinal o que é que ele ia fazer na vida?

5. O julgamento de Sócrates deve ser recordista mundial em habilidades, palhaçadas e falhas legais. Já vai em mais de dez advogados para o ex-primeiro-ministro. Só na quarta-feira apareceram quatro, que se anularam uns aos outros. ‘Quem não tem vergonha todo o mundo é seu’, diz o nosso povo.

6. A RTP e a Lusa não se vão fundir. Existe é um plano para as juntar em Marvila (não é Chelas, esclareça-se). A questão suscita uma reflexão profissional séria e ponderada, que está por fazer. Até porque, há 20 anos, outro governo AD, onde pontificava Morais Sarmento, juntou a rádio e a televisão públicas, acabando com a holding Portugal Global e separando a Lusa. Para além de outras coisas quanto ao plano em curso, interessa saber qual o destino do prédio da Lusa, junto ao Colombo, em Lisboa. Quanto vale? O que vai ser do terreno adjacente? Era um grande sítio para habitação a preços moderados para a classe média.