quinta-feira, 11 jun. 2026

Os portugueses estão fartos de eleições?

Portugal tem condições extraordinárias. Segurança. Qualidade de vida. Geografia privilegiada. Talento humano muito acima da média da nossa dimensão. O país não está condenado. Está apenas cronicamente mal-organizado. 

Estão apenas fartos de governantes desqualificados. O primeiro-ministro veio explicar ao país que «os portugueses estão fartos de eleições». A frase soa quase paternal. Como se o problema fosse o incómodo logístico de voltar às urnas. Contudo, votar não cansa. O que cansa é votar sucessivamente em elites políticas medíocres, pouco preparadas, sem experiência de execução, frequentemente sem currículo relevante fora da máquina partidária, e depois fingir surpresa perante os resultados.

Portugal não sofre de défice de exigência democrática. Há décadas que entregamos uma fatia gigantesca do rendimento produzido por quem trabalha a um Estado pesado, lento, burocrático e frequentemente mal gerido. E admiramo-nos que os serviços funcionem mal, que a economia cresça pouco, que os jovens emigrem e que o país viva permanentemente entre o discurso otimista e uma realidade anémica. O contribuinte português tornou-se uma figura quase metafísica: trabalha como um alemão, paga impostos como um sueco e recebe eficiência administrativa próxima de um balcão dos anos 80 com senha avariada.

O problema central do país continua a ser o mesmo: má gestão estrutural do dinheiro público. Falta organização. Falta responsabilização. Falta competência de execução. Falta avaliação séria. Falta coragem para reformar estruturas que vivem da complexidade e da diluição permanente de responsabilidades.

No meu último livro, Declínio Não é Destino proponho medidas relativamente óbvias para qualquer país que queira ser competitivo no século XXI:

• Simplificar processos antes de os digitalizar; 

• eliminar sobreposições institucionais; 

• criar responsáveis identificáveis por cada processo administrativo; 

• introduzir avaliação séria com impacto na progressão; 

• medir resultados em vez de anúncios políticos; 

• e, heresia absoluta em Portugal, aceitar que estabilidade não pode significar imobilismo. 

Nada disto é ideológico. É apenas gestão racional.

Mas em Portugal exigir desempenho ao aparelho público é tratado como ataque ao Estado social ou insensibilidade tecnocrática. É uma forma sofisticada de proteger a ineficiência.

O mais extraordinário é que os portugueses percebem perfeitamente o problema no seu quotidiano. Sentem-no quando esperam meses por decisões simples. Quando tentam investir. Quando abrem uma empresa. Quando pagam impostos esmagadores e recebem serviços medíocres. Quando observam carreiras políticas onde o fracasso raramente produz consequências.

E, no entanto, continuamos a reciclar os mesmos modelos, os mesmos discursos e, demasiadas vezes, o mesmo tipo de dirigentes. Portugal tem condições extraordinárias. Segurança. Qualidade de vida. Geografia privilegiada. Talento humano muito acima da média da nossa dimensão. O país não está condenado. Está apenas cronicamente mal-organizado.

E é precisamente por isso que exemplos de excelência verdadeira se tornam tão importantes. Visitei a Universidade Europeia e fiquei genuinamente impressionado com a liderança da Professora Hélia Pereira. Num país acomodado ao ‘mais ou menos’, encontrar uma instituição construída com visão contemporânea, exigência, inovação e foco em valor acrescentado não é apenas agradável – é quase desorientador.

Ali vi algo raro em Portugal: gente preocupada em fazer bem feito. Uma instituição alinhada com o melhor que existe na Europa contemporânea, mas sem perder identidade nem ambição. Talvez seja esse o verdadeiro contraste que o país precisa de enfrentar. Portugal não precisa de aprender a fazer conferências sobre excelência. Precisa de se inspirar nela e começar a premiá-la.

CEO do Taguspark, Professor universitário