Todos os anos, quando chegam os grandes incêndios, Portugal parece surpreendido. Contamos aviões, helicópteros, bombeiros e quilómetros de frente de fogo. Discutimos se os meios chegaram cinco minutos antes ou cinco minutos depois, ouvimos autarcas, comandantes e ministros e, quando finalmente começa a chover, o país muda de assunto. Até ao verão seguinte. Este ritual tem um problema: quando estamos a discutir o combate ao incêndio, já chegámos tarde.
Os incêndios em Portugal começam no inverno. Começam na floresta que não foi gerida, no mato que cresceu, nos caminhos que deixaram de permitir a passagem dos meios, nas propriedades abandonadas, na falta de descontinuidades da paisagem e num território interior que perdeu população e atividade económica. Durante décadas fomos permitindo que uma parte considerável do território português deixasse de ter quem dele cuidasse.
A pequena propriedade fragmentada, o envelhecimento da população rural, a baixa rentabilidade de muitas explorações florestais e agrícolas e a desertificação humana do interior criaram uma combinação perigosa: território sem pessoas, propriedade sem gestão e vegetação sem valor económico. Depois chega o calor. E culpamos o verão por aquilo que não fizemos durante o inverno. Seria, contudo, injusto dizer que nada mudou. Depois da tragédia de 2017, Portugal alterou significativamente o sistema de gestão dos fogos rurais e começou a deslocar recursos do combate para a prevenção. Os resultados existem e devem ser reconhecidos.
Em 2025, o investimento global no Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais atingiu cerca de 600 milhões de euros e 54% da despesa foi destinada à prevenção. A área ardida média no período posterior a 2017 está 43% abaixo da registada anteriormente. Mas há outro número que nos deve preocupar: apenas 44 grandes incêndios foram responsáveis por cerca de 91% da área ardida em 2025. O problema está, portanto, a mudar. Já não é apenas evitar milhares de pequenas ignições. É sermos capazes de prevenir e enfrentar um número relativamente reduzido de incêndios extremos, alimentados por condições meteorológicas cada vez mais adversas. E é aqui que Portugal precisa de olhar para o mapa. Estamos no extremo sudoeste da Europa continental, inseridos numa região mediterrânica particularmente exposta ao aumento das temperaturas, à seca, à escassez de água e ao risco de incêndio. Do outro lado do Mediterrâneo encontra-se o grande espaço árido do Norte de África. Não significa que o Sahara esteja a atravessar o Mediterrâneo. Significa algo mais rigoroso e suficientemente preocupante: o Sul da Europa está na linha da frente de um processo de crescente aridez e de aumento dos riscos climáticos.
Os números portugueses são esclarecedores. Entre os períodos climáticos de 1960-1990 e 1990-2020, a percentagem do território continental classificada como semiárida passou de 28% para 61%. Isto deveria alterar profundamente a maneira como pensamos o problema. Os incêndios não podem continuar a ser tratados essencialmente como uma emergência de verão. São um problema de ordenamento do território, de economia, de demografia, de ambiente, de ciência e de tecnologia. E é precisamente aqui que Portugal poderia transformar uma enorme vulnerabilidade numa oportunidade. Portugal deveria assumir como objetivo estratégico tornar-se uma referência mundial na prevenção e no combate aos incêndios rurais. Temos uma vantagem que preferiríamos não ter: experiência. Temos território onde testar soluções. Temos universidades, institutos politécnicos, centros de investigação, engenheiros, empresas tecnológicas, start-ups e um ecossistema científico com capacidade para desenvolver soluções sofisticadas. Temos ainda bombeiros, Proteção Civil, Forças Armadas, municípios e entidades florestais que conhecem o terreno e acumulam décadas de experiência operacional. O que falta é juntar estes mundos. Porque não criar um verdadeiro programa nacional de tecnologia para a prevenção e combate aos incêndios? Em vez de o Estado se limitar a comprar equipamentos disponíveis no mercado internacional, poderia lançar desafios concretos ao nosso sistema científico e empresarial. Precisamos de detetar uma ignição em dois ou três minutos. Quem consegue fazê-lo? Precisamos de drones autónomos capazes de permanecer horas sobre uma determinada área, identificar alterações térmicas e operar em condições adversas. Quem consegue desenvolvê-los? Precisamos de modelos de inteligência artificial capazes de combinar meteorologia, topografia, vegetação e vento para antecipar a progressão de um incêndio. Precisamos de sensores baratos espalhados pelo território, câmaras térmicas, comunicações resilientes, robôs capazes de operar onde colocar pessoas representa um risco excessivo, novos equipamentos de proteção individual e sistemas mais eficientes de utilização e transporte de água. Precisamos de tecnologia que permita ao comandante de uma operação saber, em tempo real, não apenas onde está o fogo, mas onde provavelmente estará dentro de dez, vinte ou trinta minutos.
O Estado deveria lançar estes desafios, financiar competitivamente as melhores soluções, testá-las no terreno e comprar aquelas que demonstrassem resultados. Não escolher empresas. Escolher resultados. Não distribuir subsídios. Comprar inovação. Não criar mais um organismo. Criar um mercado. Há países que compreenderam há muito esta lógica. Israel transformou a escassez de água numa extraordinária competência tecnológica. Os Países Baixos transformaram a ameaça permanente do mar numa referência mundial em engenharia hidráulica. Portugal deveria fazer o mesmo com a prevenção dos incêndios, a gestão da floresta e a adaptação dos territórios mediterrânicos às alterações climáticas. E não estaríamos a desenvolver tecnologia apenas para nós. Espanha, Itália, Grécia, sul de França, Califórnia, Canadá, Austrália, Chile e muitas outras regiões enfrentam incêndios de crescente violência. Existe um mercado mundial para tecnologias de prevenção, deteção, previsão e combate.
Aquilo que hoje nos custa vidas, território e centenas de milhões de euros poderia também gerar conhecimento, empresas, emprego altamente qualificado, propriedade intelectual e exportações. Mas nenhuma tecnologia resolverá aquilo que continuarmos a abandonar. Precisamos de voltar a colocar valor económico no território. Uma floresta que gera rendimento é uma floresta que alguém tem interesse em proteger. Uma propriedade que vale alguma coisa tem alguém que a gere. Um território onde existem empresas, agricultura, floresta produtiva, turismo e população é um território mais vigiado e mais resiliente. É por isso que discutir incêndios apenas através da Proteção Civil é insuficiente. A política florestal é também política económica. A política de prevenção é também política de coesão territorial. A política de combate é também política científica e tecnológica. E a política climática é, cada vez mais, política de segurança nacional.
Portugal já demonstrou que consegue melhorar. Depois de 2017, reduziu ocorrências, aumentou prevenção e construiu um sistema mais integrado. Agora é necessário dar o passo seguinte. Em vez de perguntarmos todos os verões quantos aviões temos, talvez devêssemos começar a perguntar quantas tecnologias portuguesas estamos a desenvolver para precisar cada vez menos deles. Porque um país inteligente não se limita a defender-se das suas vulnerabilidades. Transforma-as em competências.
Os incêndios em Portugal começam no inverno. A solução também.
CEO do Taguspark, Professor universitário