domingo, 18 jan. 2026

O Ronaldo que falta no Governo e os ciúmes de Cavaco Silva

Se há falta de ‘espírito Ronaldo’ em Portugal, ele manifesta-se sobretudo na chefia do Governo, incapaz de impor foco, prioridade, exigência e continuidade às políticas públicas.

O primeiro-ministro afirmou recentemente que Portugal precisa de criar um «espírito Ronaldo». A frase é eficaz, mediática e emocionalmente mobilizadora. O problema é que parte de um diagnóstico errado. Portugal não sofre por falta de Ronaldos. Sofre, isso sim, por excesso de burocracia, jobs for the boys e um sistema que não reconhece, não protege e não potencia o esforço coletivo.

Portugal está cheio de Ronaldos.

São os trabalhadores que se levantam às quatro da manhã para garantir que os filhos comem, mesmo quando auferem o salário mínimo nacional e enfrentam um custo de vida incompatível com esse rendimento. São os investigadores que trabalham em centros de excelência, reconhecidos internacionalmente, muitas vezes com carreiras precárias, contratos temporários e ausência de perspetiva de futuro. São os empresários que asseguram o pagamento de salários, impostos e contribuições sociais sob uma carga fiscal e administrativa que roça o demolidor, assumindo riscos que o Estado raramente reconhece.

Esses são os Ronaldos reais do país. Persistentes, disciplinados, resilientes. O problema não é a falta de ambição individual. É a ausência de um sistema que transforme esforço individual em progresso coletivo.

Cristiano Ronaldo não é apenas talento. É enquadramento, exigência, estratégia, competição e avaliação permanente. Tudo aquilo que o Estado português sistematicamente evita aplicar a si próprio. O apelo ao ‘espírito Ronaldo’ soa, por isso, menos a liderança e mais a transferência de responsabilidade: como se o bloqueio do país estivesse nos cidadãos e não na organização do Estado. Montenegro é especialista, como diz o nosso povo, em ‘sacudir a água do capote’.

O que falta a Portugal não é motivação. É direção. Não é esforço. É estratégia. Não é sacrifício. É justiça institucional.

Um país onde quem trabalha mais não progride, onde quem arrisca é penalizado e onde quem decide raramente é responsabilizado não tem um problema cultural. Tem um problema político e organizacional. E esse problema começa no topo.

Se há falta de ‘espírito Ronaldo’ em Portugal, ele manifesta-se sobretudo na chefia do Governo, incapaz de impor foco, prioridade, exigência e continuidade às políticas públicas. Um Estado que não se exige a si próprio não pode pedir excelência à sociedade.

Curiosamente, esta dificuldade em aceitar que os tempos mudaram parece atravessar gerações políticas. Veja-se o recente artigo de Aníbal Cavaco Silva sobre Francisco Sá Carneiro. Um texto que soa menos a reflexão histórica e mais a uma crise de ciúmes tardia, motivada pela constatação de que nenhum dos atuais candidatos presidenciais o invoca como referência política maior.

O incómodo torna-se mais evidente quando o Almirante Henrique Gouveia e Melo refere Mário Soares e Ramalho Eanes como Presidentes que assumiram posições de relevo em tempos difíceis. A comparação implícita é desconfortável para quem prefere ser recordado pela estabilidade num tempo favorável, e não pela coragem em contextos adversos.

A História é implacável neste ponto: não distingue cargos, distingue momentos. E os momentos difíceis revelam lideranças – não as proclamam.

Portugal precisa de instituições que funcionem, de um Estado que premie o mérito, proteja quem trabalha e enquadre o risco com justiça. Precisa de líderes que assumam que governar não é discursar sobre espírito competitivo, mas criar condições para que o esforço não seja inútil.

Os Ronaldos já cá estão. O que falta é um primeiro-ministro e um sistema que jogue à altura deles. Temos em breve a capacidade de eleger um presidente da República com esse espírito combativo, com capacidade de fazer acontecer e de resolver problemas. No fundo temos um Almirante ‘Ronaldo’.

 

CEO do Taguspark, Professor universitário