sexta-feira, 10 jul. 2026

Lisboa precisa, apenas, de boa gestão

As melhores cidades do mundo já perceberam que a qualidade de vida resulta menos de grandes obras e mais da excelência na gestão diária. Ruas limpas. Mobilidade eficiente. Espaço público cuidado. Segurança. Civismo. Tecnologia ao serviço das pessoas.

Lisboa não tem falta de potencial. Tem falta de rumo e execução.

Lisboa é uma das cidades mais bonitas da Europa, com uma localização privilegiada, clima excecional, frente ribeirinha única e uma capacidade crescente de atrair talento, investimento e turismo. Mas basta percorrer a cidade durante alguns dias para se perceber que existe um problema estrutural: a gestão do quotidiano urbano.

A limpeza urbana continua insuficiente para a intensidade de utilização da cidade. Uma capital moderna deveria funcionar com equipas de limpeza distribuídas por três turnos, garantindo uma presença das equipas de limpeza em permanência nas ruas, sobretudo nas zonas de maior pressão turística e comercial.

O trânsito continua a ser gerido segundo uma lógica do século passado. Não faz sentido que continuemos a assistir diariamente a cruzamentos bloqueados por veículos que impedem a circulação geral. A tecnologia já permite sistemas inteligentes de gestão semafórica, monitorização em tempo real e penalização automática dos infratores. O objetivo não é punir; é fazer funcionar a cidade.

Também é urgente reduzir a dependência do automóvel no centro urbano. Não através de medidas ideológicas contra quem conduz, mas através da criação de alternativas melhores. Lisboa necessita de uma rede integrada de silos de estacionamento nas entradas da cidade, ligados a transportes públicos rápidos, confortáveis, seguros e frequentes. Quando o transporte coletivo é melhor do que o automóvel, as pessoas mudam naturalmente de comportamento.

Ao mesmo tempo, os passeios devem voltar a pertencer aos peões. Nenhuma cidade desenvolvida aceita como normal a ocupação sistemática do espaço pedonal por automóveis. O espaço público existe para as pessoas, não para os veículos.

A questão dos sem-abrigo merece igualmente uma abordagem mais humana e mais eficaz. Não é aceitável que milhares de pessoas permaneçam em situação de exclusão sem uma estratégia integrada de habitação, saúde mental, tratamento de dependências e reintegração profissional. A compaixão exige soluções; não apenas tolerância perante o problema.

O turismo merece também uma reflexão séria. O sucesso turístico é uma conquista, mas quando o aeroporto entra em colapso, quando a mobilidade se degrada e quando a qualidade de vida dos residentes diminui, a cidade começa a pagar o preço do seu próprio sucesso. Crescer sem planeamento não é desenvolvimento; é acumulação de problemas.

Finalmente, Lisboa precisa de pensar como metrópole. Os desafios da habitação, da mobilidade, do emprego e das infraestruturas ultrapassam há muito os limites administrativos do município. O presidente da Câmara de Lisboa deveria assumir-se como o principal articulador político da região metropolitana, promovendo uma visão integrada entre as duas margens do Tejo e defendendo novas travessias, melhores ligações ferroviárias e uma estratégia comum para quase três milhões de habitantes.

As melhores cidades do mundo já perceberam que a qualidade de vida resulta menos de grandes obras e mais da excelência na gestão diária. Ruas limpas. Mobilidade eficiente. Espaço público cuidado. Segurança. Civismo. Tecnologia ao serviço das pessoas.

Lisboa não precisa de ser reinventada. Precisa apenas de ser bem gerida.

CEO do Taguspark, Professor universitário